OPINIÃO

Anamélia Lorenzetti Bocca é graduada em Farmácia Industrial, mestre em Imunologia Básica e Aplicada e doutora em Imunologia Básica e Aplicada pela Universidade de São Paulo. Professora Titular da Universidade de Brasília. Coordena o Laboratório de Imunologia Celular no Instituto de Biologia, Universidade de Brasília.

Anamelia Lorenzetti Bocca

 

As vacinas contra covid-19 não nos transformarão em jacarés ou irão alterar o nosso DNA. Pelo contrário, vão nos tornar mais humanos, focados no processo coletivo de imunização, a sonhada imunidade de rebanho. E este processo de humanização é o que estamos precisando urgentemente. Mas, como participar deste processo em um clima de tantas incertezas, com uma avalanche de dados científicos sérios, mesclados com pesquisas de interpretações duvidosas? O primeiro passo é entender como as vacinas funcionam.


A principal função de uma vacina é estimular a geração de memória imunológica para um determinado patógeno. Podemos atingir estes resultados utilizando diferentes protocolos para a apresentação do patógeno ao nosso organismo. Algumas vacinas utilizam micro-organismos inativados, atenuados, grupo de proteínas ou material genético do patógeno. Com o surgimento do Sars-Cov-2, vários grupos de pesquisa se engajaram neste mutirão e preparações vacinais eficientes foram disponibilizadas para o novo vírus, em um curto espaço de tempo. A rapidez do processo foi questionada, com especial atenção à eficácia e confiabilidade. O fato é que diversas plataformas vacinais já estavam em desenvolvimento para outros vírus e assim os ensaios clínicos puderam ser iniciados com o surgimento da pandemia.


As vacinas que finalizaram seus ensaios clínicos de fase 3, e estão sendo testadas de forma emergencial no mundo, utilizam 3 metodologias distintas: o vírus inativado, mRNA da proteína spike e DNA, também da proteína spike do vírus, inserido em um adenovírus como vetor. Todas estas metodologias induzem níveis elevados de anticorpos neutralizantes, o que confere proteção as nossas células, evitando a entrada do vírus via um receptor celular (ACE2). A novidade implementada nesta pandemia e a utilização de vacinas que, além das respostas de anticorpos, também induzem uma resposta celular, onde os linfócitos T citotóxicos de memória participam do processo de eliminação das células infectadas. Dados científicos foram apresentados sobre a eficácia das vacinas, em relatórios à Anvisa e/ou em revistas científicas, no entanto, dúvidas ainda são levantadas sobre a sua eficácia e segurança. Todas as vacinas apresentaram, efeitos colaterais mínimos e uma eficácia satisfatória nos voluntários testados, prevenindo a infecção virale atenuando os sintomas clínicos daqueles que contraíram a doença.


As vacinas estão em uso emergencial, o que significa que não sabemos todos os seus efeitos nas populações e, por esta razão, a disponibilidade, efeitos adversos e eficácia serão monitoradas pelas agências reguladoras de todo o mundo. Precisamos destacar que as novas preparações vacinais representam um marco no processo de desenvolvimento das vacinas, e estamos tendo a oportunidade de participar deste momento. A nossa participação na campanha de vacinação irá contribuir diretamente para o controle da pandemia, reduzindo as taxas de morbidade e mortalidade.

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