OPINIÃO

Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/CEAM/UnB), membro tiular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da CAPES, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-sub-secretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.

Isaac Roitman



Em uma verdadeira democracia, as instituições públicas devem contribuir para o bem comum, para a coletividade. Quando as políticas e ações públicas beneficiarem grupos ou pessoas, principalmente através de desvios de recursos, teremos uma grande ameaça ao estado democrático.


A corrupção no Brasil é antiga. Já no século 16 os funcionários coloniais exportavam por conta própria especiarias, tabaco, metais e peças preciosas. Seguiu-se a traficância dos escravos, a manipulação dos contratos para obras públicas, a corrupção eleitoral do Império, o voto de cabresto da República, o “rouba mas faz”, escândalos financeiros, o “esquema PC” e tantos outros que produzem o “mar de lama”, expressão repetida ao longo do tempo.


O manejo do poder e dos recursos se constitui como tentação que exige um papel de vigilância da sociedade civil. A corrupção é uma grande ameaça para a democracia brasileira. Embora sempre presente na nossa história, ela talvez jamais tenha assumido uma dimensão tão extensa e profunda. Até no combate da pandemia do covid-19 desviou-se recursos públicos. Que vergonha.

Se não conseguimos superá-la no passado, temos a oportunidade de superá-la no presente para proteger o nosso futuro. Graças à abrangência, à instantaneidade e à liberdade dos meios de comunicação, torna-se hoje mais difícil, senão impossível, ocultar os fatos da sociedade que parece não estar disposta a aceitar a corrupção.


Pessoalmente, penso que a corrupção é uma doença da alma como as doenças definidas como os sete pecados capitais: luxúria, gula, avareza, ira, soberba, vaidade e preguiça. Como todas as doenças, ela não acomete a todos. Muitas pessoas são susceptíveis a ela, outras não.

A corrupção é uma doença incurável. Ela deve ser combatida por exemplo como foi combatida a paralisia infantil que é também incurável. Nesse caso ela foi eliminada pela prevenção, através do desenvolvimento de uma vacina.

A vacina para a corrupção é a educação. Uma educação de qualidade para todos os brasileiros. Ela, além de proporcionar a alfabetização das letras e dos números e preparar para uma profissão digna, deverá exercitar o pensamento e a crítica argumentada e principalmente introduzir e consolidar as virtudes como a solidariedade e a ética. Devemos cumprir a nossa missão geracional e preparar uma nova geração onde a corrupção seja um fenômeno do passado.

Nesse futuro não tão remoto teremos conquistado a utopia de uma verdadeira justiça social, onde cada brasileiro tenha a oportunidade de ser feliz. Nesse contexto é pertinente lembrar o pensamento de Anísio Teixeira: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública.”

Será pelo aperfeiçoamento do processo democrático que o Brasil se tornará um país com plena justiça social que permitirá a todos/as brasileiros/as conquistarem seus sonhos. Lembremos o pensamento de Nelson Mandela: “Democracia com fome, educação e saúde para a maioria é uma concha vazia.” Independente da ideologia de cada um é importante construir cenários e debater e combater as fragilidades da democracia brasileira.

 

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Publicado originalmente no Monitor Mercantil em 2/12/2020

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