OPINIÃO

Enrique Huelva Unternbäumen é vice-reitor da Universidade de Brasília. Possui mestrado em Filologia Germânica, Filologia Hispânica e História e doutorado em Linguística pela Universidade de Bielefeld (Alemanha), onde lecionou Filologia Hispânica. É professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da UnB na graduação em Letras e no Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada. Na UnB, foi coordenador dos cursos de graduação, chefe do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução, vice-diretor do Instituto de Letras, coordenador do Núcleo de Recursos e Estudos Hispânicos, coordenador do Núcleo Instituto Confúcio e Diretor do Instituto de Letras.

Enrique Huelva

 

A Universidade de Brasília e a sociedade à qual ela serve são a razão de ser do compromisso solene que hoje reassumo, com plena consciência das responsabilidades inerentes ao cargo, e que me motivam e legitimam a pedir-lhes licença para proferir algumas palavras como vice-reitor desta Universidade, projetando, como me cabe e como cabe a todos, os próximos anos da nossa instituição, na medida em que os desafios impostos por um presente, ora vertiginosamente mutante, ora estático e paralisante pela prolongação incerta de uma crise que nos ameaça como seres vivos e nos desafia como sociedade, possibilitem esse exercício de reflexão.

 

Escolho para tal a forma do paradoxo. Paradoxo, não como mera figura retórica ou como contradição lógica que bloqueia o fluxo de pensamento, mas como aquela inquietação de espírito que nos instiga a desafiar lógicas longamente sedimentadas sobre dicotomias tidas em muitos casos como insuperáveis, que nos compelem a escolher um dos lados opostos. O resultado é, com frequência, a obstrução, quando a nossa essência como universidade é e deve ser, ao contrário, o impulso, a inspiração, o entusiasmo.

 

Escolho, como primeiro, um paradoxo muito atual. Nas suas quase já seis décadas de existência, a Universidade de Brasília foi construída, quase exclusivamente, com base no que os sociólogos chamam interação comunicativa, isto é, a unidade mínima e fundamental de sociedade, que se constitui a partir da presença física – corpórea – em um mesmo espaço e tempo de dois ou mais indivíduos que interagem comunicativamente. Milhares de disciplinas e turmas, centenas de laboratórios, centros, núcleos, conselhos, colegiados e áreas administrativas construíram a Universidade, na cotidiana proximidade dos nossos encontros e reencontros (talvez até alguns desencontros), das uniões e reuniões em cada um desses espaços.

 

Mas, de repente, a pandemia quebrou abruptamente essa normalidade: a proximidade deu lugar à inevitabilidade da prescrição do distanciamento, nossos corpos são agora virtualizações reduzidas à bidimensionalidade de uma tela, e as nossas aulas e reuniões acontecem, paradoxalmente, na reclusão dos espaços de trabalho dos nossos domicílios. A Universidade foi obrigada a se reinventar. E ela se reinventou. Com as dificuldades inerentes ao tamanho do desafio, mas também com a criatividade, a dedicação incansável e o saber fazer dos nossos técnicos, discentes e docentes.

 

Chegará o momento – esperemos que não demore muito – em que a pergunta se torne possível e, com ela, o paradoxo implicado inevitável: que fazermos com essas duas realidades, com essas duas formas de construir universidade, com esses dois mundos? Voltamos ao original, a uma universidade baseada na interação, renunciando a tudo o que foi gerado, optamos pela virtualização ou produzimos uma hibridação entre ambos os mundos? Admito que estou distante de poder dar uma resposta minimamente fundamentada a essa pergunta.

 

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