OPINIÃO

Richard Santos é professor adjunto do Centro de Formação em Artes, CFA, e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal do Sul da Bahia, UFSB. Possui pós-doutorando no Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade da Universidade Federal da Bahia, Pós-Cult-UFBA. Doutorado em Ciências Sociais pelo Departamento de Estudos Latino-Americanos – ELA/UnB. Mestrado em Comunicação pela Universidade Católica de Brasília. Especialização em História e Cultura no Brasil pela Universidade Gama-Filho. Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo. É autor do livro Branquitude e Televisão. A nova (?) África na TV pública, editora Gramma, 2018.

Richard Santos

 

No momento em que a América Latina volta a se debater sobre qual caminho civilizacional seguir, pensar o legado de Darcy Ribeiro é imprescindível para compreender os golpes à democracia, a ação da burguesia internacionalista e representante do capital financeiro na região e a demanda por uma estética política da branquitude, onde negros, indígenas e seus descendentes continuam subjugados às elites históricas da região.

 

O golpe sofrido por Evo Morales na Bolívia, o sufocamento dos países com governos à esquerda, e a eleição de Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina, mostram a esquizofrenia dessa “civilização emergente”, “civilização nova”, como cunhou Darcy Ribeiro.

 

No Brasil, o dia da consciência negra comemorado no dia 20 de novembro, alusivo à imortalidade de Zumbi dos Palmares, deveria ser um dia nacional de reflexão e renovação do pacto nacional pela vida, educação, direitos e cidadania nacional para além das comemorações e atividades do movimento negro. Não o é. Darcy e seus contemporâneos explicam.

 

Do alto de suas vivências, dos vários mundos por ele percorridos, da academia às nações indígenas, da assessoria presidencial e criação de instrumentos educacionais integradores da população brasileira ao exílio, Darcy afirma que somos uma sociedade em guerra, vivemos uma guerra social e o nosso “atraso civilizacional” é decorrente dela. Afirma também que a academia não produz, não pensa e não escreve sobre as minorias espoliadas, vitimadas por essa guerra de manutenção da hegemonia branca. Em suas palavras, Darcy diz[1]:

 

Em nossas sociedades subdesenvolvidas, e por isso mesmo, descontentes consigo mesmas, tudo deve estar em causa. Cumpre a todos indagar dos fundamentos de tudo, perguntando a cada instituição, a cada forma de luta e até a cada pessoa, se contribui para manter e perpetuar a ordem vigente ou se atua no sentido de transformá-la e instituir uma ordem social melhor. Esta ordem melhor [...] representa tão somente aquilo que permitirá a maior número de pessoas comer mais, morar decentemente e educar-se. [...] Por agora, se trata de enfrentar nossa guerra contra a penúria e contra todos os que, de dentro ou de fora de nossas sociedades, às querem tal qual são, não importa quais sejam suas motivações. Nesta guerra, as ciências sociais, como tudo o mais, estão conscritas e, por sua vontade ou a seu pesar, servem a uma das facções em pugna.

 

Entendo que esta guerra de que trata Darcy Ribeiro é o conflito estabelecido pelo controle dos povos, suas mentes e imaginário, pela continuidade ou não do colonialismo e/ou pela emancipação dos povos, dessa Maioria Minorizada[2]. Creio que essa pugna está sendo travada neste momento em dois campos específicos; o da educação, se para a emancipação das mentes ou de reafirmação da dependência eurocêntrica, e no campo da comunicação. Comunicação como mediadora social para a verdadeira descolonização ou comunicação para a reafirmação dos signos subalternizadores de nós. Para onde iremos? É o que se perguntou Darcy e o que me pergunto diariamente. O que queremos de nós? Pergunto eu.

 

Darcy Ribeiro, com sua história, branquitude crítica[3] e complexidade é um cavaleiro de dois mundos.

 

O Darcy Ribeiro político, da assessoria de presidentes e governadores, vice-governador do Rio de Janeiro, Senador e solidário das causas ungidas no seio da Maioria Minorizada, é o militante político crítico, trabalhista e aberto para a pluralidade de valores e signos.

 

O Darcy Ribeiro antropólogo, estruturalista, e ideólogo da mestiçagem, da civilização emergente, é o que se expressa pelos signos da branquitude crítica, da suavização da contribuição negra e da reflexão suavizada e festiva sobre os povos e etnias formadoras do caudal cultural e civilizacional latino-americano, desse “homem novo”, como chamava.

 

É também o intelectual cujas compreensões das relações raciais no Brasil foram se transformando à medida que atuava e se vinculava a pensadores e partidários da causa negra do quilate de Abdias do Nascimento, seu parceiro na criação do Partido Democrático Trabalhista, PDT, e com quem dividiu o mandato de Senador da República. 

 

Essas breves reflexões sobre a América Latina e Caribe a partir da obra deste magnífico pensador, surgiu a partir do convite a aula magna da disciplina “Darcy Ribeiro: pensamentos e fazimentos” oferecida pelo Decanato de Extensão da Universidade de Brasília. Fez-me imergir sobre o papel da universidade pública como farol para as construções e desconstruções sociais.

 

O convite levou-me também a pensar em meu processo formativo, minha formação familiar de viés trabalhista, as lembranças de momentos com o meu avô Oswaldo Alexandrino, líder político comunitário no bairro do Rio Comprido, debatendo a política carioca. De seus encontros com Brizola, Darcy, Benedita da Silva, Carlos Alberto de Oliveira o Caó e tantos outros, tendo a mim, criança e adolescente como testemunha ocular, ouvinte da história, e de uma estória que me trouxe até aqui.

 

Sou agradecido e privilegiado por ter testemunhado esses momentos, que não foram de alegrias e festa, foram e são histórias de luta por moradia, por democracia, por dignidade e visibilidade dos invisibilizados.

 

Faz-me refletir também sobre o papel da educação como ferramenta para a emancipação, o reconhecimento dos saberes não eurocêntricos, dos conhecimentos e saberes tradicionais plurais, que passa, também, por nossa atuação política. Diria eu que educar é um ato político revolucionário. E se colocar na posição de educando, de sujeito em constante aprendizagem, é mais radical ainda. Sinto-me assim, e, também por isso, me filio criticamente às propostas de Darcy Ribeiro. Mas, minha perspectiva de educação plural e integradora, que conforma minha visão sobre a América Latina e o Brasil contemporâneo, passa também por nomes da contemporaneidade de Darcy Ribeiro, como Abdias do Nascimento, Nelson Carneiro, Guerreiro Ramos. E outros não menos importantes com as quais travou duelos intelectuais e políticos de forma direta ou indireta, como Lélia Gonzalez, Clóvis Moura, Maria Beatriz do Nascimento, Milton Santos e Neusa Sousa Santos.

 

Ao apontar a branquitude crítica de Darcy Ribeiro, afirmo que, apesar de sua postura crítica combativa, alguém que parece estar numa constante reconfiguração de si, os seus pensamentos e fazimentos estão repletos dela. Darcy está recheado de signos que, ao olhar contemporâneo, poderiam ser significantes de preconceito, machismo e patriarcalismo. Ao trazer esta afirmação, busco apresentar um Darcy Ribeiro humano, real, não idealizado postumamente, mas com contribuições significativas para o avanço educacional e inclusivo que acreditamos. Focado na pluralidade de saberes, mas, também, com comportamentos de época associados à branquitude e ao patriarcalismo. Plural, complexo e distinto.

 

Darcy Ribeiro nos informou que o Brasil e a América Latina com seu processo histórico criaram humanidades distintas, que a distância social mais espantosa do Brasil é a que separa e opõe os pobres e os ricos. A ela, diz ele, se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros, aos negros.

 

Darcy buscou resposta para uma pergunta específica, transversal a toda sua obra e busca de respostas: “Porque o Brasil ainda não deu certo”?

 

De meu ponto de vista e influenciado por uma série de pensadores e pensadoras dessa América ladina, como cunhou Lélia Gonzalez[4], o Brasil não deu certo por conta de seu racismo estrutural, por conta de seu sistema de castas que exclui os não brancos e subalterniza a Maioria Minorizada nos mais variados âmbitos de nossa formação social.

 

É uma pergunta que também nos permite resgatar Milton Santos[5] que nos informa que uma nação não poderá jamais ser formada por cidadãos incompletos, de cidadanias mutiladas, é lembrar o caribenho Aimé Césaire[6] que nos diz sobre nossa colonialidade estrutural e não quebrada mesmo pós-independência.

 

É finalizar com Frantz Fanon[7] que nos lembra de que a mente colonial não se reestrutura a partir das independências políticas, mas por vontade de se tornar descolonizado, de criar uma verdadeira unidade na diversidade. Pelo que vimos de nossa realidade histórica, de nossa formação civilizacional, o Brasil ainda não deu certo, pois não nos dispusemos a transformar nossas sociedades, a incluir mais do que excluir, a admitir que não somos uma Europa, somos um país de maioria negra e trabalhadora, somos uma Maioria Minorizada. Somente quando olharmos para essa população alijada de direitos e de cidadania completa teremos condições de vislumbrar um processo civilizacional transformador, inclusivo e plural.

 

No momento que vivemos, as barbáries da violência institucional estimulada por organismos internacionais na região da América Latina e Caribe, a fome na Venezuela, os assassinatos de manifestantes no Chile, o contínuo bloqueio a Cuba, os linchamentos e aniquilamentos de indígenas e partidários de Evo Morales na Bolívia, e o massacre da população negra no Brasil, pensar a transformação social, a sociedade plural e inclusiva é fundamental para a utopia da paz e do bem estar tão teorizado e pouco praticado por nós e pelos nossos. Estamos em guerra, gritou Darcy Ribeiro.

 

[1] RIBEIRO, Darcy. As Américas e a civilização. Prefácio. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1970.

[2] SANTOS, Richard. Do Sujeito Desidentificado à maioria Minorizada: uma abordagem histórica da Antinegritude na mídia brasileira. In: 130 anos de (des) ilusão: A farsa abolicionista em perspectiva desde olhares marginalizados. Org. Luciano Góes. Belo Horizonte: Editora D´plácido, 2018.

[3] CARDOSO, Lourenço. Branquitude acrítica e crítica: a supremacia racial e o branco anti-racista. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, Niñez y Juventud (Vol. 8 no. 1 ene-jun 2010). http://biblioteca.clacso.edu.ar/Colombia/alianza-cinde-umz/20131216065611/art.LourencoCardoso.pdf. Acesso em 10/11/2019.

[4] GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. In: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, Nº. 92/93 (jan./jun.). 1988.

[5] SANTOS, Milton. As cidadanias mutiladas. In: O preconceito. Impresna Oficial do estado de São Paulo, 1996/1997. Disponível em: http://www.miltonsantos.com.br/site/wp-content/uploads/2011/12/As-cidadanias-mutiladas_MiltonSantos1996-1997SITE.pdf. Acesso em 10 nov. 2019

[6] CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Lisboa: Livraria Sá da Costa editora, 1978 [1955].

[7] FANON, Frantz. Os condenados da terra. Civilização brasileira, 1968.

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