Paulo Marins
Escrever sobre o Dia Mundial do Rock é algo muito especial para mim. Cresci em Brasília, a chamada Capital Brasileira do Rock, acompanhando de perto o movimento que ficou conhecido como Rock de Brasília. Na infância, fui aluno de inglês de Renato Manfredini Jr., o Renato Russo, um dos maiores letristas e melodistas do rock brasileiro. Na adolescência, tive aulas de baixo com André X, baixista da Plebe Rude, outra banda pioneira da cena brasiliense.
Uma das minhas maiores inspirações foi Paul McCartney, baixista dos Beatles, banda de rock mais popular de todos os tempos. Minha trajetória musical começou no rock de Brasília, passando por diversas bandas. Mesmo explorando outros estilos posteriormente, o rock permaneceu como uma referência fundamental na minha formação.
Atualmente, sou professor do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB). Ao ingressar na Universidade, um professor, sabendo da minha ligação com o Rock de Brasília, questionou se o rock estaria “acabando”, se teria contribuído para a internacionalização da música brasileira e afirmou que roqueiros seriam alienados politicamente e não seriam bons músicos.
Com todo respeito à trajetória desse colega, aproveito o Dia do Rock para refletir sobre essas ideias. A história demonstra justamente o contrário: o rock sempre foi uma música plural, inovadora, engajada e formada por grandes músicos.
O rock surgiu nos Estados Unidos entre as décadas de 1940 e 1950, a partir da fusão de diferentes tradições, especialmente de matrizes afro-americanas e da música country, com influências do blues, gospel e rhythm and blues. Desde então, tornou-se símbolo de juventude, rebeldia e expressão cultural, alcançando dimensão global.
A mistura de culturas sempre esteve presente no rock. O gênero dialogou com o jazz em bandas como Chicago e King Crimson, incorporou elementos da música latina no trabalho de Santana e recebeu influências do reggae em bandas como The Police. Também absorveu referências da música africana, indiana e do Oriente Médio, presentes em artistas como Talking Heads, Peter Gabriel, Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin e System of a Down. Além disso, músicos como Paul Simon e David Byrne incorporaram elementos da música brasileira em suas composições.
No Brasil, essa mistura foi igualmente marcante. Os Mutantes combinaram rock psicodélico com música brasileira durante o tropicalismo. Mais tarde, Chico Science & Nação Zumbi uniram rock, maracatu, funk e hip hop, enquanto o Sepultura incorporou ritmos indígenas e percussões brasileiras ao heavy metal. A internacionalização do rock, portanto, não representou perda de identidade, mas sua capacidade de dialogar com diferentes culturas e se reinventar.
Tampouco, procede a ideia de que roqueiros seriam alienados politicamente. “Blackbird”, dos Beatles, relaciona-se à luta contra o racismo; “Fortunate Son”, do Creedence Clearwater Revival, tornou-se símbolo de crítica à Guerra do Vietnã; The Clash abordou desigualdade e conflitos sociais em “London Calling”; e o U2 tratou de questões políticas em “Sunday Bloody Sunday” e “Pride (In the Name of Love)”. Green Day criticou a Guerra do Iraque em “American Idiot”, enquanto Rage Against the Machine abordou racismo e abuso de poder em músicas como “Killing in the Name”.
No Brasil, a Legião Urbana marcou gerações com “Que País É Este”, enquanto Titãs, RPM e muitas outras bandas utilizaram o rock para discutir questões sociais e culturais. O rock político possui uma longa tradição de questionamento e reflexão sobre a sociedade.
Também penso ser equivocada a afirmação de que roqueiros não seriam bons músicos. Rick Wakeman, do Yes, estudou piano, clarinete e orquestração no Royal College of Music. Yngwie Malmsteen desenvolveu um estilo influenciado pela música barroca e tornou-se referência do heavy metal neoclássico. Steve Vai estudou na Berklee College of Music. Freddie Mercury recebeu formação em piano clássico, e Carl Palmer, do Emerson, Lake & Palmer, estudou percussão clássica.
Além deles, inúmeros músicos sem formação acadêmica formal alcançaram níveis excepcionais de criatividade e técnica, como Jimi Hendrix, Geddy Lee, Stewart Copeland, Keith Emerson, dentre muitos outros. Diante desses exemplos, podemos afirmar que o rock é uma música mestiça, engajada, popular e universal. É um estilo plural, capaz de unir culturas, questionar a sociedade e emocionar diferentes gerações.
Parabéns ao rock! Mais do que um gênero musical, ele continua sendo uma forma de expressão que se reinventa, questiona e permanece viva.
Como dizem Frejat e Dulce Quental em “O Poeta Está Vivo”:
“Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo
Com seus moinhos de vento.”
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