Carla Antloga
Nos últimos anos, o debate sobre a inserção feminina no mercado de trabalho ganhou novos contornos. Não basta mais discutir apenas o direito de entrar no mercado; é fundamental questionar as estruturas que impedem as mulheres de chegar ao topo. É nesse contexto que o @psitrafem tem conduzido, há dez anos, pesquisas que evidenciam de forma contundente que a sub-representação feminina em cargos de liderança não é um acaso, mas a materialização de um modelo de gestão projetado por e para o universo masculino.
Os estudos revelam uma realidade paradoxal e alarmante. No serviço público brasileiro, por exemplo, embora as mulheres sejam majoritárias, ocupando mais da metade dos postos de trabalho, elas continuam sub-representadas nas cadeiras de poder e recebendo salários inferiores aos dos colegas homens. A pesquisa "Majoritárias, Porém Subvalorizadas" (Carvalho & Antloga, 2025) evidencia que essa não é uma questão de competência, mas de reconhecimento e estrutura.
Além do "teto de vidro", essa barreira invisível que trava a ascensão feminina, temos labirintos, pisos pegajosos e cascas de banana que alimentam mecanismos que praticamente naturalizaram a carência de mulheres em espaços de poder. Por exemplo, um sistema inteiro que ainda se organiza ao redor do cuidado imputado às mulheres, que não tem jornadas duplas, mas sim infinitas, e que ainda tem a culpa materna alimentada por narrativas pra lá de perversas contra as mães.
O ambiente corporativo e institucional foi desenhado sob a lógica do "trabalhador ideal", aquele que não tem responsabilidades domésticas, que pode ficar até mais tarde no escritório e que se dedica 24 horas por dia à empresa. Este modelo é claramente excludente para a realidade da maioria das mulheres, que ainda arcam desproporcionalmente com o trabalho de cuidado não remunerado. Essa sobrecarga leva ao adoecimento e afasta as mulheres das posições de gestão, que exigem disponibilidade integral.
Precisamos de mais mulheres na liderança, mas não de qualquer jeito. A necessidade não é meramente numérica ou estética; é uma questão de saúde pública e eficiência social. Ao analisar o trabalho feminino, verificamos que as mulheres frequentemente desenvolvem competências relacionais, escuta ativa e resiliência para lidar com situações de adversidade. Porém, o que deveria ser um ativo é desvalorizado, enquanto comportamentos autocentrados e agressivos, típicos de uma gestão arcaica, são confundidos com "liderança forte".
Portanto, para avançarmos, não basta pedir que as mulheres se "adequem" a um jogo feito por homens. Precisamos de uma reformulação estrutural das instituições. Isso significa, como sugerem os achados do @psitrafem, a criação de políticas que desnaturalizem a divisão sexual do trabalho e que promovam a equidade real.
A presença feminina na liderança não é um favor que se concede às mulheres; é a correção de um desvio histórico que prejudica a todos. Ter mais mulheres no comando significa trazer para a mesa de decisão uma visão de mundo mais plural, menos hierárquica e mais atenta às necessidades humanas. Enquanto o sucesso profissional feminino continuar sendo um exercício de superação de barreiras invisíveis e exaustão psicológica, nossa sociedade estará fadada a repetir os erros de um passado que insiste em não passar. É hora de romper o silêncio e, de fato, ocupar o lugar que sempre deveria ter sido nosso.
Referência
Carvalho, A. L. M., & Antloga, C. S. (2025). Majoritárias, Porém Subvalorizadas: Desigualdades de Gênero no Serviço Público Brasileiro. Saúde Coletiva (Barueri), 15(95), 15580–15589. https://doi.org/10.36489/saudecoletiva.2025v15i95p15580-15589
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