Maria Hosana Conceição e Laura Davison Mangilli Toni
Em uma universidade pública comprometida com a transformação social, formar profissionais de saúde exige mais do que domínio técnico. Exige escuta, diálogo, sensibilidade social e capacidade de atuar coletivamente diante de problemas complexos que atravessam territórios, corpos e modos de vida. É nesse horizonte que o bloco de componentes curriculares Seminários Integrativos, ofertado pela Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde (FCTS) da Universidade de Brasília, no campus de Ceilândia, se consolida como uma experiência pedagógica singular e estratégica na formação em saúde.
A história dos Seminários Integrativos se confunde com a própria trajetória da UnB Ceilândia. Criado em 2008, no contexto de implantação do campus, quando as atividades acadêmicas ainda ocorriam no Centro de Ensino Médio (CEM) 04 da Ceilândia, o componente já nascia com um propósito claro: promover a integração de conhecimentos entre estudantes de diferentes cursos da área da saúde. À época, cerca de 100 estudantes dos cursos de Farmácia, Enfermagem, Saúde Coletiva e Fisioterapia compartilhavam esse espaço formativo pioneiro. Nos anos seguintes, com a criação dos cursos de Terapia Ocupacional e Fonoaudiologia, a proposta interdisciplinar se fortaleceu e se diversificou.
A mudança para o campus definitivo, em 2012, com infraestrutura universitária plena, simbolizou a consolidação de um projeto pedagógico comprometido com o território de Ceilândia e com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, mais de 900 estudantes se matriculam, a cada semestre, nos Seminários Integrativos, distribuídos em cerca de vinte turmas, conduzidas por uma equipe docente interprofissional, representativa dos seis cursos da FCTS.
Os Seminários Integrativos compreendem um conjunto de seis componentes curriculares, que podem ser cursados de forma gradativa ao longo dos semestres. A cada edição, docentes e discentes definem coletivamente a temática a ser trabalhada, sempre ancorada em questões contemporâneas e socialmente relevantes, como direitos humanos e saúde, relações étnico-raciais, educação ambiental, promoção da saúde de diferentes grupos populacionais e equidade no cuidado. Essa escolha reforça o compromisso com uma formação crítica, territorializada e socialmente referenciada.
Embora obrigatório para estudantes ingressantes, especialmente na primeira edição do componente, os Seminários Integrativos extrapolam a lógica da obrigatoriedade. Muitos estudantes optam por cursá-los em mais de um semestre, inclusive na modalidade optativa, em especial no curso de Saúde Coletiva, no qual a carga horária integrada dialoga diretamente com o projeto pedagógico do curso. Essa adesão revela o reconhecimento do componente como espaço de aprendizagem significativa.
Estruturada por meio de edital público, a disciplina se organiza em etapas bem definidas, combinando atividades online e presenciais. Os estudantes participam da escolha do tema central por meio de formulário eletrônico e, na primeira aula presencial, formam grupos interprofissionais para a elaboração coletiva do plano de trabalho, sempre orientados por um roteiro comum e acompanhados pelos docentes.
Nesse contexto formativo em permanente atualização, os Seminários Integrativos também se configuram como espaço estratégico para o uso orientado e crítico de ferramentas de Inteligência Artificial generativa, como o ChatGPT, ao longo das etapas previstas em edital. A IA pode apoiar a organização inicial das ideias, a problematização dos temas, a estruturação dos planos de trabalho e o aprimoramento da comunicação, sem substituir a autoria discente. Inserido em uma dinâmica baseada no trabalho coletivo, na diversidade de cursos e na mediação docente, esse uso consciente fortalece a aprendizagem significativa, estimula a responsabilidade acadêmica e prepara futuros profissionais de saúde para dialogar criticamente com tecnologias emergentes, em consonância com os princípios do SUS, da ética acadêmica e da equidade social.
Outro elemento central do componente é a liberdade criativa concedida aos grupos para a apresentação dos resultados. Os produtos finais podem assumir formatos audiovisuais, cênicos, literários ou artísticos, ampliando as possibilidades de expressão e reafirmando que a produção de conhecimento em saúde não se limita ao texto acadêmico tradicional.
Mais do que um exercício avaliativo, os Seminários Integrativos constituem um espaço de formação ética, política e cidadã. Ao longo de quase duas décadas, os temas debatidos refletem os desafios contemporâneos da saúde pública e reafirmam o compromisso da UnB com uma formação sensível às realidades sociais do Distrito Federal e do país.
Celebrar a trajetória dos Seminários Integrativos é reconhecer que a integração entre cursos, saberes e pessoas não é apenas uma estratégia pedagógica, mas um projeto institucional. Em tempos de fragmentação do conhecimento, rápida incorporação tecnológica e desafios crescentes para a saúde pública, experiências como essa reafirmam o papel da universidade pública na defesa da vida, do cuidado e do território.
Nota institucional
A Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde (FCTS/UnB) registra, com respeito e gratidão, a contribuição da professora Clélia Maria de Sousa Ferreira Parreira, uma das idealizadoras dos Seminários Integrativos, que faleceu em 15 de agosto de 2022. Sua atuação foi decisiva para a consolidação do componente curricular, destacando-se pelo rigor acadêmico, pela sensibilidade pedagógica e pelo compromisso com uma formação em saúde humanizada e integrada. Seu modo de ensinar, pautado na escuta atenta, no respeito aos tempos dos estudantes e na valorização do diálogo, permanece como legado na memória institucional da FCTS.
Este artigo contou com o apoio da ferramenta de Inteligência Artificial generativa ChatGPT (OpenAI), utilizada como recurso auxiliar para a organização textual e o aprimoramento da redação. A autoria intelectual, a análise crítica e a responsabilidade pelo conteúdo são integralmente dos autores.
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