OPINIÃO

Dioclécio Campos Júnior é professor emérito da Universidade de Brasília. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, é mestre e doutor em Pediatria, ambos pela Universidade Livre de Bruxelas. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria e presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC). Atua principalmente nos temas: vínculo mãe-filho, aleitamento materno, nutrição infantil, crescimento e desenvolvimento, desnutrição, estreptococcias, parasitologia, saúde pública e comunicação.

 

 

Dioclécio Campos Júnior

 

A criança é a encarnação do amor que vem ao mundo para perpetuar a espécie. Sua alma é a mais próxima da fonte de vida humana. Seu corpo e seu organismo são estruturados na etapa intrauterina, em conformidade com as características genéticas que constituem o seu chamado genoma. É quando se inicia a sua exposição, via placentária, aos bons e maus estímulos do meio ambiente. Exemplo são os fatores ambientais estressantes que afetam a maioria das mulheres no exercício de suas nobres funções, induzindo-as a produzir substâncias como cortisol e adrenalina, que podem, por meio da placenta, atingir o organismo do feto causando distúrbios prejudiciais à sua formação normal.

 

A gravidez é uma fase bem complexa da criação de um novo ser humano. Requer assistência pré-natal não apenas médica, mas, também, psicossocial e educativa destinada às figuras materna e paterna orientando-as a respeito da relevância do seu papel para o crescimento e o desenvolvimento saudáveis do feto durante a gestação e após o parto.

 

Os países que investem nessa faixa etária mostram o potencial construtivo com o qual as crianças chegam ao mundo. Infelizmente, a essência dos cuidados com a qualidade humana das novas gerações não é reconhecida em nosso país. Os governos dão pouco valor às comprovações científicas que priorizam saúde e educação na infância. Tamanho desleixo para com o futuro cidadão não ocorre apenas durante sua vida intrauterina, nem somente no Brasil. O atraso da sociedade precisa ser revertido.

 

O psicanalista espanhol Ajuriaguerra, que atuava na França, publicou revisão histórica sobre o assunto. Deixa claro que, desde os mais remotos tempos, a infância foi a maior vítima da violência dos adultos. Destaca os períodos marcados pelo desprezo, desafeto e agressão. São os seguintes: 1 - Infanticida (da antiguidade ao século IV). É a fase histórica das mais cruéis. Foi quando o cristianismo opôs-se ao infanticídio como ato criminoso e pecaminoso; 2 - Abandono (entre os séculos 4 e 13). Parte dos infanticídios foi substituída pelo abandono, ato que culmina com a morte impiedosa das vítimas; 3 - Ambivalente (entre os séculos 14 e 16). Os dois crimes citados prevaleceram como desprezo para com as novas gerações; 4 - Intrusivo (século 18). Resultou de iniciativas voltadas para a reversão de tamanha criminalidade; 5 - Social (entre os séculos 19 e 20). Países comprometidos com o humanismo defendem a proteção da criança e o investimento em sua saúde e educação; 6 - Ajuda (do século 20 em diante). É o atual período em que poderá crescer a valorização do mérito dessa faixa etária.

 

O tempo passa, mas a violência contra a criança ainda persiste mundo afora. Crimes como infanticídio, abandono, abuso sexual, aborto, trabalho infantil, entre outros, são hediondas tragédias praticadas contra muitas criaturas recém-chegadas ao nosso mundo e tratadas como meras miniaturas do adulto. Sofrem a imposição de atos e fatos que nada têm a ver com a sua essência humana.

 

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Publicada originalmente pelo Correio Braziliense em 21/01/2021.

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