OPINIÃO

José Matias-Pereira é economista e advogado. Possui doutorado em ciência política pela Universidade Complutense de Madri (UCM-Espanha), e pós-doutorado em administração pela Universidade de São Paulo (FEA/USP). É professor-pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências Contábeis da Universidade de Brasília. Autor, entre outros livros, de Finanças Públicas, 7. ed. GEN-Atlas, 2018.



José Matias-Pereira

 

A enorme dimensão do choque econômico no mundo, provocado pela pandemia da covid-19, estão evidenciados nas quedas acentuadas dos PIB na maioria dos países, no primeiro semestre de 2020. As projeções feitas pelas instituições internacionais para os próximos anos também não são animadoras. Essa crise econômica e social que abalou o planeta pode ser comparada as vivenciadas na Grande Depressão, da década de 1930, e na crise financeira mundial, ocorrida em 2008.

 

A economia mundial, conforme previsão do Banco Mundial, terá uma contração de 5,2% em 2020. Essa queda deve ser mais acentuada entre as economias avançadas, onde a previsão é que o PIB encolha 7%. A contração nos países emergentes e em desenvolvimento deverá ser 2,5%, e uma queda de 3,6% na renda per capita em 2020. Em todo o mundo, a recessão deve registrar a maior proporção de economias com queda no PIB per capita desde 1870.  

 

Em relação ao Brasil, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê uma queda do PIB de 6,5% em 2020. Essa previsão pessimista é devido às medidas de contenção da covid-19, que causou uma queda acentuada nos investimentos e redução nos preços globais das commodities. Assinala na sua previsão que, que o crescimento da economia brasileira em 2021 deverá ser 3,6%. Por sua vez, a previsão do mercado financeiro é de uma queda de 5% do PIB em 2020.

 

Assim, decorridos os nove primeiros meses, desde o início da divulgação pela China da notícia do surgimento do novo coronavírus, no final do mês de dezembro de 2019 – que se espalhou rapidamente por todo o planeta –, constata-se que, além da letalidade da doença, ela também é responsável por provocar um cenário de incertezas em relação às políticas e ações que cada país terá que implementar para enfrentar os problemas econômicos e sociais advindos da recessão econômica no pós-pandemia.

 

Mesmo nesse ambiente de incertezas, é relevante considerar, no esforço de desenhar cenários do pós-pandemia da covid-19, os seguintes fatores: a China, apesar da preocupação com uma segunda onda da doença, está saindo do confinamento e reabrindo as fábricas; o apoio dos bancos centrais, notadamente nos EUA e União Europeia, estão sendo implementadas de maneira consistente; a agilidade para dar liquidez ao mercado se mostra efetiva; as curvas de contágio do novo coronavírus estão ficando mais planas; e as intervenções governamentais estão produzindo efeitos positivos na estabilização da volatilidade do mercado financeiro.

 

Registre-se, conforme evidenciado nos dados analisados (IBGE, 02.09.20), que a retomada da economia brasileira na pós-pandemia da covid-19 não será fácil, visto que o país – que já vinha buscando se recuperar de um período recessivo da economia –, terá que superar os desafios do desemprego, aumento da pobreza, elevado número de falências e a necessidade de um mercado de crédito mais eficiente.

 

É preciso alertar que, a recuperação da economia brasileira não poderá ser feita apenas com a participação do Estado, por meio de aumento dos investimentos públicos. Essa retomada vai necessitar da participação do setor privado nacional e de investidores externos. Para que isso ocorra é necessário que o governo federal, com a participação efetiva do Congresso Nacional, continue avançando com as reformas estruturais que o país necessita, em especial a tributária e administrativa. É importante, também, retomar a agenda de consolidação fiscal, notadamente, a manutenção do teto de gastos, e realizar um amplo elenco de reformas pró-mercado, para aumentar a confiança no país e a segurança jurídica.

 

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