OPINIÃO

Dioclécio Campos Júnior é professor emérito da Universidade de Brasília. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, é mestre e doutor em Pediatria, ambos pela Universidade Livre de Bruxelas. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria e presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC). Atua principalmente nos temas: vínculo mãe-filho, aleitamento materno, nutrição infantil, crescimento e desenvolvimento, desnutrição, estreptococcias, parasitologia, saúde pública e comunicação.

 

 

Dioclécio Campos Júnior

 

A pandemia desencadeia o pesadelo de um tsunami infeccioso que põe em risco a sobrevivência da humanidade. Os efeitos devastadores afetam a estrutura do organismo das pessoas que habitam o planeta. Além de impor elevado índice de mortalidade, a crise sanitária deteriora, de forma acentuada, o equilíbrio social, que é o alicerce insubstituível de uma sociedade verdadeira.

 

A comunidade humana enfrenta, neste período, desafios gigantescos e, até agora, insuperáveis. O agente viral propagou-se com velocidade inimaginável, instalando-se em praticamente todos os cantos e recantos da Terra. Ainda que desconhecidas as características etiológicas e fisiopatológicas do vírus, alguns produtos terapêuticos já são utilizados sem base científica e com o potencial ameaçador dos efeitos adversos que podem provocar.

 

A insegurança e a incerteza das informações, levianamente veiculadas, caracterizam o cenário atual, cada vez mais poluído pelas controvérsias descabidas que deixam as criaturas mentalmente intoxicadas. Ademais, a pandemia tem sido reforçada pelo nefasto vírus político-partidário, subjacente aos discursos e a ações que proliferam nos meios de comunicação.

 

As normas estabelecidas para reduzir a transmissão da covid-19 enfrentam a resistência de boa parte das populações. Um dos exemplos é a quarentena, prática já realizada quando de outras pandemias. Corresponde ao isolamento das pessoas durante períodos definidos pelas instâncias responsáveis, com o intuito de reduzir as chances de propagação do coronavírus. Trata-se de procedimento de saúde pública, cujo objetivo é proteger o maior número possível de integrantes da população. Além disso, o distanciamento entre os seres humanos e o uso de máscara são requisitos preventivos importantes.

 

Nessa fase tão dramática, na qual somente se prioriza a sobrevivência humana, o conceito de saúde precisa ser fortalecido, preservado, respeitado e promovido com o investimento de todos os recursos necessários. Saúde só poderá ser entendida como o bem-estar físico, mental e social do indivíduo.

 

Não há dúvida de que a propagação da covid-19 representa ameaça à saúde coletiva e individual. É também evidente que as medidas adotadas para reduzir a sua transmissão e evitar as consequentes morbidade e letalidade são providências destinadas a proteger a vida, mas não a promover a saúde.

 

Na verdade, com as ações unicamente protetivas implantadas mundo afora, o bem-estar físico, mental e social sofre visível abandono. É o alto preço a ser pago para garantir a sobrevivência das populações. Ansiedade, estresse, depressão e violência doméstica têm sido cada vez mais destacados como indicativos dos prejuízos que a quarentena pode causar. Contudo, é iniciativa indispensável e cientificamente validada.

 

Como toda e qualquer forma de tratamento e prevenção das enfermidades, as ações adotadas têm também efeitos colaterais. Por isso, sua implantação requer cuidados especiais para com os seres envolvidos. Caso contrário, a maioria deles livra-se da morte, mas passa a viver com a mente abalada, isto é, sem saúde. Vale dizer que, se o único objetivo continuar sendo o de impedir a morte, o atraso na promoção da saúde será ainda maior no país.

 

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Publicado originalmente no Correio Braziliense em 26/7/2020.

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