OPINIÃO

Berenice Bento é professora do departamento de sociologia da Universidade de Brasília. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás, mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília, doutora pela UnB/Universidade de Barcelona e pós-doutora pela CUNY/EUA.

Berenice Bento

 

Por quem choramos?  Esta pergunta tem sido reiterada para pensarmos acerca das vidas que importam, quais são passíveis de luto e de choro. Gostaria, no entanto, de torcer esta questão: o que nos provoca riso? De quem rimos? Em tempos de perplexidade social, os memes se proliferam na mesma velocidade dos vírus e dos vermes.  Os episódios “Bolsonaro versus Mandetta”, “Bolsonaro & cloroquina” transformaram-se em matéria-prima para a produção de memes.  Em outro texto apontei que vivemos um momento alto do abjeto na política institucional. Não há qualquer consenso sobre como nomear Bolsonaro: de louco a perverso, de lixo a verme, há uma gradação considerável de conceitos da teoria política, da psicanálise, de adjetivos e de expressões de pura indignação. Não há qualquer consenso. Será?


Revejo alguns dos memes que recebi nos últimos dias. No primeiro, Bolsonaro é representado como uma adolescente, uma paquita. Ele está usando um short muito apertado, uma camiseta curta e uma jaqueta. A camiseta faz propaganda da cloroquina. O garoto propaganda da hidroxicloroquina transfigura-se em uma adolescente boba, de olhar ingênuo e, ao mesmo tempo, sensual.


Segundo meme: Bolsonaro encarna uma senhora velha que está sentada e tem uma expressão facial mal humorada, vestida com um traje luxuoso e com um coroa real na cabeça. Aqui, Bolsonaro torna-se a rainha da Inglaterra. O contexto refere-se à pouca autoridade que o presidente tinha sobre a gestão do ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, em relação às decisões envolvendo as políticas de combate e prevenção à pandemia da Covid-19. Nada mais infeliz que utilizar a figura da poderosa rainha da Inglaterra para significar ausência de poder. Enganam-se. Simbólica, política e economicamente, a família real inglesa não é uma peça decorativa.


Terceiro meme: Bolsonaro, com o olhar fixo, usa uma peruca à la Maria Antonieta, o batom estilizado em forma de coração. A frase: “Rainha Louca. Carlota Cloroquina”. A referência é à Carlota Joaquina, mas o desenho também abre espaço para identificarmos aí a Rainha de Copas de “Alice no País das Maravilhas”, personagem que preferia ser temida a amada na gestão e manutenção do seu poder. Cortar perversamente as cabeças de súditos infiéis era a punição rotineira no seu reino.


Quarto meme: Duas meninas vestidas de azul estão de mãos dadas. Uma tem a cara de Trump. A outra, a de Bolsonaro. As duas seriam irmãs gêmeas. A afinidade política dos dois presidentes é reconhecida, mas por que identificá-los como duas meninas?


A cada absurdo de Bolsonaro, um exército de memes invadem as redes. Parte considerável deles irá interpretar os fatos vinculando-os à loucura, à infantilidade, à instabilidade e à pouca capacidade de decisão. Ou seja, Bolsonaro reúne todos os atributos negativos identificados com o feminino.  Mas Bolsonaro não é mulher, então, transformam-no em uma travesti. Uma travesti adolescente idiotizada, uma travesti louca, uma travesti que grita e que, por ser travesti, só tem performance, mas é nulo seu poder.

 

Não sei quem fez esses memes, mas sei que eles são amplamente difundidos por pessoas “de esquerda” (as aspas aqui são para por em suspensão esta identidade política) que se dizem vinculados a um ideário dos direitos humanos e da justiça social. No desejo de utilizar mecanismos mais “leves”, de rápida comunicação de uma ideia para denunciar as atrocidades de Bolsonaro, tornam-se reprodutores da violência contra o feminino, este lugar ocupado por corpos e subjetividades instáveis, descontroladas e infantis, decretam os memes.

 

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Publicado originalmente em Cult em 22/4/2020

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