OPINIÃO

Rodolfo Augusto Melo Ward de Oliveira é doutorando em Artes Visuais e Mestre em Arte Contemporânea pela linha de pesquisa, Arte e Tecnologia, da Universidade de Brasília - UnB (2019). Pós-Graduando em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais IREL/UnB (2019). Pós-Graduado em Análise Politica e Políticas Públicas pelo Instituto de Ciência Política - IPOL/UnB (2018). Cursou como aluno regular o Mestrado em Ciências do Ambiente pela Universidade Federal do Tocantins - UFT (2015). Possui MBA em Marketing Estratégico pela Universidade Federal do Tocantins - UFT (2012/2014). Especialista em Artes Visuais, Cultura e Criação pelo Senac-DF (2012), Tecnólogo em Fotografia pela Universidade Luterana do Brasil - Ulbra (2007), graduado em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Brasília - UCB/Ulbra Universidade Luterana do Brasil (2005).

Rodolfo Ward

 

De acordo com o geografo Wagner Costa Ribeiro e o sociólogo Ricardo Abramovay (2015), ambos da Universidade de São Paulo – USP, o termo Antropoceno surge nos anos 1980 cunhado pelo biólogo Eugene F. Stoermer para denominar a nova era geológica que vivemos. Posteriormente, em 2004, o termo foi popularizado pelo químico, e vencedor do Prêmio Nobel em 1995, Josef Crutzen. Entretanto, o termo ainda não é unanimidade dentro da academia, geólogos estão pesquisando as ações humanas sobre a superfície da terra afim de encontrar fatos científicos que comprovem a ação humana como força biológica na transformação da superfície da terra. Dentre essas pesquisas estão o surgimento, e, ou, o desaparecimento de espécies, derretimento de geleiras, a influência no aumento de temperaturas, desaparecimento de corais entre outras alterações de escala global.

 

Do ponto de vista histórico existe uma confusão de quando teria iniciado o período Antropoceno, para alguns pesquisadores teria sido junto com a Revolução Industrial (sociedade de consumo, combustíveis fósseis), para outro o período inicia com as Grandes Navegações onde inicia-se a troca de material biológico em larga escala entre continentes, para outros teria sido a partir da criação do Artefato Nuclear que modifica toda a superfície atingida por décadas. Não existe consenso. O que existe é a percepção que a espécie humana tem alterado a terra de forma geológica.

 

Desde que a espécie humana se fixou passou a ter uma vida sedentária. O ser humano passou a agir como uma força biológica na transformação da superfície da terra. A humanidade se transformou de força biológica para força geológica. Determina o funcionamento do sistema climático. Nenhuma espécie havia feito isso anteriormente. A humanidade conseguiu se desenvolver devido ao Regime climático relativamente ameno de um grau para cima ou para baixo.

 

Desde do ano de 1750 para cá a temperatura subiu 0.85 º. O horizonte até o final do século XXI é da elevação de mais 4º na temperatura global média. Esse aumento na temperatura global irá provocar o derretimento de geleiras, maior absorção de calor pela terra e o desaparecimento de cidades. Oceanos são sorvedouros que absorvem o efeito estufa e estão sendo poluídos com resíduos plásticos. O volume de material que o ser humano movimenta hoje em dia possui mais massa que a última glaciação, um evento natural. É necessário reorganizar o pensamento no século XXI. Pensar modelos coletivos. Diminuir o uso de combustível fóssil. Unir o saber das comunidades indígenas ao científico combinando esses conhecimentos para mudança de consciência é a imprescindibilidade de se buscar novos tipos de relação entre tecnologia, arte, sociedade e natureza que superem a atual polarização progresso versus preservação e tecnologia versus natureza. Para isso é necessária articulação política e uma virada no pensamento econômico.

 

Para Alfredo Pena Vega (2019, p. 16) vivemos mais um momento em que a situação do mundo nos revela que o modelo de civilização hegemônico, baseado no crescimento econômico, está esgotado. A sociedade se mostra inábil em lidar com a crise ambiental. Nossos antepassados legaram às gerações presentes um grande ônus ambiental, crentes de que nós, com nossa tecnologia e evolução, pudéssemos acabar com a fome, a apartação social e a finitude dos recursos naturais. Não pretendemos nos aprofundar em fatores socioeconômicos ou geopolíticos. O que queremos trazer para a discussão é como esses fatores atuam regendo nossas vidas cotidianas, criando desigualdades sociais e destruindo o planeta e que tendem a se agravar com o passar do tempo.

 

A economia linear deve se transmutar para uma economia circular. Não é mais possível prosperar ou enriquecer sobre a base da exaustão dos recursos naturais. O crescimento econômico deve ser regido pela sustentabilidade em busca de uma sociedade de baixo carbono. O pensamento econômico deve adotar uma nova ética baseada em economia de recursos naturais e girar em torno de regenerar o que foi degradado. Criar um novo pacto social em que haja mais sociabilidade e cidades inteligentes, cidades regenerativas. O ser humano se tornou ator importantes na dinâmica planetária. Um dos desafios é de repensar as matrizes energéticas, renovar a matriz tecnológica de produção de maneira circular ou sustentável. Por meio do uso consciente de materiais renováveis. É imprescindível a implantação da cultura da inovação no contexto social contemporâneo.

 

A transmutação do pensamento deve vir de forma global. Deve ser incentivada a cultura da inovação. O que é inovação e por que inovar? Inovar serve para solucionar os problemas complexos do mundo contemporâneo. Criar ou recriar modelos de negócio para satisfazer uma necessidade humana que ainda não foi satisfeita. Segundo o Manual de Oslo, documento central e amplamente utilizado em políticas públicas de estímulo à inovação tecnológica, inovação é “a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas” (OCDE, 2005, p. 55).

 

A atual crise global gerada pela pandemia do COVID - 19 trouxe à tona a necessidade do estímulo da cultura da inovação dentro do serviço público. O Sistema Único de Saúde – SUS recebeu ajuda criativa e doações de diversos FabLabs de todo território nacional para poder suprir a demanda por equipamentos de proteção individual dos profissionais de saúde. É necessária a criação e fomento de espaços de criatividade, aprendizado e inovação para desenvolver e construir projetos dentro da esfera do setor público. Atualmente existem diversos laboratórios de inovação espalhados pelo mundo.

 

Nos últimos anos houve um crescimento de laboratórios focados na inovação para o setor público, entretanto, o investimento em inovação e o número de Laboratórios de inovação são muito pequenos frente aos da iniciativa privada. Um laboratório de inovação pode mudar o ambiente de qualquer organização, seja ela privada ou pública. Os labs devem buscar soluções inovadoras, criando técnicas e ferramentas. Os laboratórios devem dar suporte a inovadores no desenvolvimento de ideias para solucionar grandes desafios sociais globais. O foco deve ser no estímulo à inovação como processo organizacional, e não como algo que acontece por acaso. A cultura da inovação deve ser fomentada dentro da esfera pública.

 

O filósofo oriental sul coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, autor, dentre outras, das obras Sociedade do cansaço (2014) e Sociedade da transparência (2014), afirma, ao estudar a historicidade da sociedade, que em cada época a humanidade desenvolveu uma doença social característica, como, por exemplo, no século passado, as patologias eram bacteriológicas ou virais, enquanto a patologia da sociedade contemporânea é neuronal, psíquica. Para o autor, o sistema neoliberal implantou uma nova fase do capitalismo, o capitalismo da emoção, marcando a transição da biopolítica para a psicopolítica, da sociedade disciplinar para uma sociedade do controle pelo rendimento, em que o homem é obrigado a render, sendo ele mesmo o fiscal do seu desempenho e o acusador do seu fracasso. 

 

Han (2014) vê uma possível saída para a crise civilizacional que vivemos na arte e na contemplação. A arte é uma possível saída para encontrarmos outras narrativas para se viver o Eu, para entendermos melhor o mundo e seu funcionamento, para termos autoconhecimento. O autor afirma que para vivermos melhor são necessários momentos de vazios, reflexões profundas sobre nossas vidas, momentos em que não nos autoexploramos. E por meio desse viés, olhando por esse prisma, encontrarmos formas criativas e regenerativas e autossustentáveis para coexistirmos com todos os outros seres do planeta terra.

 

HAN, Byung-Chul. A sociedade da transparência. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2014.

________. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.

PENA VEGA, Alfredo. Wawekrurê: distintos olhares./Rodolfo Ward, organização, fotografias. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2015. 156 p.: il., fotos. Edições do Senado Federal, v. 213.

 

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