OPINIÃO

Susana Xavier é técnica Administrativa em Educação; especialista em Gestão de Pessoas pela UnB; especialista em Gestão de Pessoas na Administração Pública pela ENAP, aluna especial do Mestrado em Direitos Humanos do CEAM; atual diretora da Diversidade.

Susana Xavier

 

Elas entenderam que não é possível romper com uma estrutura de poder estando fora dela, e por isso se reuniram, se organizaram e decidiram que era um direito fazer parte do movimento sindical sem sofrer assédios, ameaças e humilhações. Foi neste sentido que propuseram uma nova configuração na formação da chapa observando o equilíbrio entre gêneros.


Lutaram bravamente contra o patriarcado, contra o conservadorismo e contra o machismo. Sofreram violências durante todo o processo, mas sabiam que não seria fácil mudar a estrutura rígida e viciada que é própria do sindicalismo. Contudo, foram mais que ousadas, foram firmes e expuseram a lógica dos assédios praticados contra as mulheres no movimento sindical.


Por apenas 60 votos, perderam as eleições. Mas este resultado não é indigno ou desmerecedor, ao contrário ele trouxe à tona o anseio por mudanças, desejadas pelas/os jovens que estão na ativa e que acreditam que a democracia só existe de fato e de direito quando se permite a participação efetiva de todas as pessoas nos processos deliberativos.


Vinte e duas mulheres decidiram que não serão mais cotas estatutárias e que seus corpos políticos serão respeitados e suas vozes ouvidas. Decidiram representar servidoras e servidores que se manifestaram por meio do voto, expressando que é necessário romper com a velha política e com o aparelhamento da máquina sindical.


Foi um grande feito, uma provocação sem igual, construída de forma coletiva e dialogada. A luta de 22, conectadas e interligadas e como bem disse Adrienne Rich (1979): “...as conexões entre mulheres são as mais temíveis, a força mais potencialmente transformadora do planeta”, e é disso que o patriarcado tem medo.


Uma nova história começa a ser contada. Em tempos muito sombrios, nos quais a violência de gênero se amplia e se acentua fortemente, mulheres se rebelam e dizem não a estrutura de poder e iniciam uma revolução que tem por objetivo a ocupação dos espaços políticos no âmbito dos sindicatos. Tudo começa na UnB, mas na certeza que seguirá pelas demais bases sindicais.


Mesmo que algumas aceitem o papel subalterno e tentem invisibilizar as dores e as violências sofridas, insistindo em não compreender os processos históricos de opressão, a revolução há de continuar. Ainda que os “companheiros de luta” utilizem de métodos pouco ortodoxos para vencer as eleições, já existe um levante que promete se difundir e isso se dará cada vez que uma mulher se conectar com outra na luta contra a cultura misógina e sexista que nos agride e mata todos os dias.


A eleição de uma chapa instituída por um único segmento da categoria, impedindo a participação da juventude e das mulheres, mesmo que só por 60 votos de diferença, mostra a necessidade de mudanças, sendo urgente e imperativa a oxigenação, sob pena de morte política e financeira do sindicato.


Com uma composição tão pouco representativa que não respeita a pluralidade e a diversidade que compõem a categoria dos técnicos e das técnicas administrativas, o sindicato está incapacitado para a luta. A mobilização começa pela juventude, e o contexto político atual clama por oxigenação e por respeito à pluralidade de ideias, por novas práticas e métodos e pelo rompimento com a manipulação curralesca que é própria da velha política.


Sindicatos devem ser espaços de mobilização e aglutinação, mas vêm perdendo a credibilidade, porque não aceitam a renovação. As lideranças antigas continuam atuando com as mesmas práticas que foram exitosas no passado, mas que não se adequam à nova realidade e nem à atual conjuntura. Para resgatar o que foi perdido é preciso ter diálogo franco e aberto com a finalidade de politizar e aproximar as categorias dos movimentos de luta, porém, boa parte da vanguarda se recusa a compreender esses processos.


Por fim, conclui-se que o resultado só foi mais um tapa do machismo e do conservadorismo nos rostos de trabalhadoras que ansiavam pela inovação, mas não devemos nos esquecer que segundo Paula Cohen (2018) “...as mulheres são como água, crescem quando se encontram”.


“Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?”
Frida Kahlo

 

 

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