OPINIÃO

Alexandre Pilati  é professor associado de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília, doutor em Literatura pela UnB (2007). É pesquisador e professor na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, poesia.  Realizou estágio pós-doutoral na Facultad de Filosofia y Letras da Universidad de Buenos Aires - Argentina (2015). Foi coordenador-adjunto do Curso de Aperfeiçoamento Educação, Pobreza e Desigualdade Social (MEC-UnB / 2017-2018). É Diretor Técnico de Extensão do Decanato de Extensão da Universidade de Brasília (DEX-UnB) e vice-coordenador do GT Literatura e Sociedade da ANPOLL. Integra o corpo editorial da revista Crítica Marxista.

Alexandre Pilati

 

Atividades do Decanato de Extensão durante a SEMUNI revisitam o legado do fundador da UnB

 

A Universidade de Brasília tem a honra de acolher, entre os seus fundadores, Darcy Ribeiro, um dos personagens mais interessantes da história das ideias do século XX. Etnólogo, escritor, educador, homem de fazimentos e pensamentos e constituído por várias facetas, Darcy ousou pensar a Universidade de Brasília como aquela que pudesse dominar todo o saber disponível e empenhá-lo para a resolução dos problemas específicos de uma nação periférica como o Brasil. A UnB nasce, portanto, com o compromisso de estar à altura das exigências de sua sociedade, configurando-se como uma academia inovadora, no sentido de que não produz e reproduz saberes ignorando as peculiaridades da experiência histórica brasileira, marcada profundamente por mazelas e dificuldades.

 

Dono de uma trajetória rica de realizações, que se estenderam em inúmeros campos e ao longo de vários anos, o fundador da UnB é ainda um pensador de vibrante atualidade. E a atualidade de Darcy Ribeiro está, sobretudo, em seu recado para a juventude universitária e trabalhadora de hoje. É de inestimável valor para as novas gerações que vão se formando no século XXI na UnB, a lição de seu empenho em analisar a realidade brasileira em termos concretos, com um raro tino para a hierarquização dos problemas sobre os quais é possível e também necessário intervir. Tal obstinação pela materialidade da vida nacional, em regra, se somou a uma insatisfação produtiva que acabou caracterizando toda a sua trajetória de homem público, distinguindo-o como intelectual capaz de fazimentos. Darcy Ribeiro retomou uma tradição de interpretação do Brasil e a pôs a serviço de um raro empreendimento dialético, que sempre extraía o melhor de anseios utópicos e da avaliação realista do presente; que sempre punha em movimento a atenção da crítica associada à dinâmica da ação.

 

Como forma de recuperar algumas das ideias de Darcy Ribeiro e relacioná-las com a atualidade do debate sobre o ensino superior no país, o Decanato de Extensão da Universidade de Brasília – DEX tem encampado algumas ações que visam oportunizar o contato das novas gerações de estudantes e da comunidade do Distrito Federal com o legado daquele que dá nome ao campus universitário do Plano Piloto. Uma dessas ações é a disciplina Darcy Ribeiro: pensamento e fazimentos, ofertada pela primeira vez neste semestre 2º/2019. A disciplina é fruto de uma iniciativa de estudantes e professores, que, com o apoio do DEX, têm conduzido, junto com os mais de 200 matriculados, atividades de debates, leituras, discussão de filmes, rodas de conversa etc. A disciplina, que é também um curso de extensão aberto à comunidade, terá um evento especial durante a Semana Universitária (SEMUNI), que consistirá em uma mesa redonda sobre O movimento estudantil na UnB de Darcy. Também durante a SEMUNI, haverá apresentação especial do Cine Darcy, com exibição de filmes com temáticas ligadas ao pensamento de Darcy Ribeiro enquanto etnógrafo e estudioso das culturas indígenas do país.

 

Essas são apenas algumas ações que visam disseminar a herança de um pensador que pode nos mobilizar hoje em dia para pensar e compreender a função política e social da universidade na conjuntura atual. Em um livro hoje reconhecido como um clássico dos estudos brasileiros, A universidade necessária, que em 2019 completa meio século de existência, Darcy Ribeiro anotou que “a rebeldia da juventude das nações subdesenvolvidas é uma forma de expressão da sua inconformidade com o atraso de suas sociedades. E se assenta na consciência generalizada de que a penúria de seus povos não é natural nem necessária, mas decorre de fatores sociais removíveis e só persiste porque é lucrativa para as camadas dominantes das próprias sociedades”. A universidade necessária é, nesses termos, aquela que está à altura da rebeldia que o tempo histórico nos demanda. Um tempo é preciso saber enfrentar, ao modo de Darcy Ribeiro, com a marca da ousadia, olhando para a utopia e aprendendo com a vida presente, tal como nos ensinou o nosso fundador. 

 

Mesa-redonda: O movimento estudantil na UnB de Darcy

Participantes: Prof. Paulo Speller e Iago Montalvão (UNE). Mediação dos estudantes João Marcelo M. Cunha e Matheus Barroso.

Data: 25/9/2019 Horário: 19h

Cine Darcy: Exibição do filme inédito Kuarup do Darcy e dos curtas Funeral Bororo e Um dia na Aldeia Urubu Kaapor. Após as exibições haverá debate com os presentes.

Data: 24/9/2019 Horário: 14h às 17h

 

ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seus conteúdos.