OPINIÃO

Pedro Luiz Tauil é professor do Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical, da Faculdade de Medicina, da Universidade de Brasília. Graduado em Medicina, mestre em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em Medicina Tropical pela UnB. Atua na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Epidemiologia (epidemiologia e controle de malária, dengue e febre amarela e metodologia epidemiológica).

Pedro Luiz Tauil

 

Infelizmente, após a eliminação do sarampo de muitos países, por meio de campanhas de vacinação com altas coberturas populacionais, essa doença voltou a incidir em muitos desses países, inclusive no Brasil.


Doença muito comum no passado, incidente principalmente em crianças, com gravidade importante, podendo levar à morte crianças desnutridas e pessoas com imunodepressão, o sarampo foi eliminado a partir do uso sistemático da vacina naqueles países que planejaram, organizaram e executaram programas de vacinação contra a doença, a partir de sua ampla disponibilidade nos anos de 1970/1980, o Brasil entre eles.


Entretanto, por várias razões, alguns países, tanto desenvolvidos, como subdesenvolvidos, não optaram por sua eliminação, por meio do uso sistemático da vacina, e a doença continuou existindo, mesmo com baixa incidência, nesses países.


O intenso e cada vez mais rápido fluxo internacional de pessoas, a alta capacidade de contágio da doença e a queda nos percentuais de vacinação nos países que alcançaram sua eliminação, em razão de outras prioridades sanitárias, estão entre os principais fatores que podem explicar o retorno do sarampo em praticamente todos os países que haviam logrado sua eliminação. Associa-se a isso um crescente e pouco esclarecido movimento mundial antivacina em geral, que reduziu a demanda de pessoas em busca de vacinas. Esse movimento tem raízes religiosas e razões anticientíficas e que atribuem às vacinas eventuais eventos colaterais nocivos à saúde das pessoas.


A necessidade de manter altas coberturas vacinais até a eliminação mundial das doenças de transmissão de pessoa a pessoa é fundamental para se obter sua extinção e evitar seu retorno, como se conseguiu em relação à varíola, eliminada do mundo há mais de 50 anos.


O movimento antivacina é insustentável cientificamente. As vacinas constituem-se num procedimento de altíssima relação custo benefício favorável, até agora o maior praticado pela atenção à saúde no mundo. Milhões de pessoas deixaram e deixam de adoecer e morrer graças a esse procedimento, simples, eficaz e seguro. As vacinas contêm substâncias que estimulam os organismos a produzirem anticorpos protetores específicos contra as doenças conhecidas como imunopreveníveis. Na medida em que produzem uma grande quantidade de pessoas protegidas contra a doença, a vacinação tem um caráter coletivo, reduzindo o risco de propagação das doenças. Dentro dessa perspectiva, busca-se também a eliminação da poliomielite (“paralisia infantil”) cuja transmissão está hoje restrita a uns poucos países asiáticos e africanos, com manutenção de altas coberturas vacinais em todos os países que já a eliminaram de seus territórios.

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