OPINIÃO

Bárbara Medeiros é doutoranda em Administração e professora voluntária da disciplina Diversidade nas Organizações no curso de Administração da Universidade de Brasília - UnB. Pesquisadora do Centro de Cultura e Estudos LGBT no ambiente de trabalho (FACE/UNB) e do Núcleo de Diversidade e Crítica Organizacional (FACE/UNB)

Bárbara Medeiros¹

 

O mês de junho é rememorado desde os anos 1969 devido ter sido marcado historicamente pela Revolta de Stonewall, que ocorreu nos Estados Unidos quando homossexuais encorajados lutaram por reconhecimento e contra toda violência policial empenhada às existências LGBTs. A resistência aconteceu em um bar na madrugada. Homossexuais não se intimidaram e não se calaram frente ao “avanço” da ação policial.

 

Para muitas pessoas, esse ato pode ter sido compreendido como uma luta inútil, contra moinhos de ventos como nos lembra as histórias das aventuras do personagem Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Por outro lado, para indivíduos LGBTs, o significado dessa luta foi e continua sendo outro, a saber: vale toda a pena do mundo! É desejo! É pulsão! É orgulho e liberdade de sentir, desejar e vivenciar o amor em todas as suas formas polimórficas.

 

Internacionalmente, o dia 28 de junho – desde os anos 1969, ficou marcado como o Dia do Orgulho Gay. Atualmente, é celebrado como Dia Internacional do Orgulho LGBT – uma data para se pautar.

 

Passaram-se 50 anos dessa luta! Foram muitas conquistas diante do ativismo encorajado de indivíduos LGBTs, que ocuparam espaços públicos e de contestação. Esse movimento de orgulho liberou vozes historicamente silenciadas e permitiu a subversão do silêncio imposto.

 

Hoje, não se pode negar que o silêncio ainda é presente diante do medo da LGBTfobia por parte de indivíduos LGBTs, presos socialmente em gaiolas de ferro da moral – armários, como dito em expressão popular –, que aniquila toda possibilidade de expressão do desejo diferente da norma heterossexual; e, de expressão de si, diferente do binarismo, masculino ou feminino.

 

Esse silêncio mata! É só despertar o olhar com a sensibilidade da crítica indagadora para compreender isso a partir de dados como: a cada 20 horas um LGBT morre de forma violenta vítima da LGBTfobia (Grupo Gay da Bahia - GGB); os gays, em termos absolutos, são o segmento LGBT que mais se suicida, com 60% de óbitos (Grupo Gay da Bahia - GGB); e, o Brasil é o pais que mais mata transexuais (ANTRA- Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

 

Tenho que dizer Brasil que nas suas terras podem até ter palmeiras, mas muitos sabiás já deixaram de cantar. Ainda parafraseando a canção do exílio, de Gonçalves Dias, acredito esperançosamente – mesmo diante de todas as incertezas que estamos vivendo – que sim, “na nossa vida mais amores”. É isso que nos afeta, move, influencia para agirmos sobre uma dada realidade em prol da mudança. Não é preciso ser LGBT para lutar por LGBT! Somos todos humanos e esse “segredo” parece estar guardado na caixa de pandora.

 

O mês de junho, chega com ar de orgulho e esperança para LGBTs, mesmo que isso pareça contraditório de se dizer no atual cenário político brasileiro. Essa esperança que faz acreditar na transformação, que nos permite aprender, ensinar, e resistir como diz Paulo Freire, a tudo aquilo que seja obstáculo a nossa alegria.

 

Pensar a humanidade, portanto, é pensar com esperança, como nos lembra Paulo Freire. E uma educação sem esperança não é educação. É compreender que a minha atitude pode mudar a realidade específica de gays, mulheres lésbicas, bissexuais, pessoas LGBT’ negras, e sobretudo, de pessoas trans, que seguem sem acesso à cidadania e direitos básicos, como o direito de existir! É preciso educar para influenciar pessoas, interferir em uma cultura machista e homofóbica, ser literalmente, agente de mudança na sociedade brasileira. Como diz Paulo Freire, é preciso uma Pedagogia da Comunicação! E nessa pedagogia, somos todos humanos.

 

É mês de orgulho!

É mês de esperança!

É mês de sermos juntos, todxs humanos!

Quero lhe contar um segredo: “Esse mês é todo dia!”.

 

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¹Doutoranda em Administração e professora voluntária da disciplina Diversidade nas Organizações no curso de Administração da Universidade de Brasília. É pesquisadora do Centro de Cultura e Estudos LGBT no ambiente de trabalho e do Núcleo de Diversidade e Crítica Organizacional (ambos FACE/UnB).

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