OPINIÃO

José Geraldo de Sousa Junior
Ex-Reitor e professor da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, membro da Comissão Justiça e Paz de Brasília.

José Geraldo de Sousa Junior¹

 

Nessa sexta-feira, dia 17 de agosto, fui me despedir de Norma Sueli, no Campo da Esperança. Ela estava lá, serena como sempre, num raro e bem adornado esquife, branco como os primeiros ipês dessa florada brasiliense, embora ainda predominem os amarelos exuberantes, cores que ela amava.

 

Basta ver esse cromado predominante no design de seu facebook, desde ontem com postagens sensíveis e amorosas, revelando a imensa saudade que elas traduzem porque Norma cultivava principalmente afetos, invariavelmente embalados em poesia, em fragmentos cotidianos, retalhos, seu singular estilo.

 

Recolho uma de suas últimas mensagens:

 

Pequeno Testamento de um ex-Amor Candango. Para Carol. Deixo para você um dos azulejos do Athos Bulcão. Levo a foto da Caliandra tirada em um dia de sol; a minha dedicatória, não sei porque, foi feita a lápis. Os ingressos do último show da Legião Urbana são inegociáveis! As lembranças de nosso primeiro encontro em uma sala da aula na UnB serão repartidas: você no Minhocão Norte e eu no Sul! Pode apagar as minhas fotos dos Ipês de seu celular: sinto que este ano eles estarão ainda mais bonitos! Vamos nos encontrar em um final de tarde na Ermida Dom Bosco para negociar pequenas lembranças trazidas de Pirenópolis e Alto Paraíso e curtir o pôr-do-sol. Nossa kit não nos cabe mais: eu fico na Asa Norte e você vai para a Asa Sul. PS: Nosso amor é como a Estrutural: não tem retorno. (Norma Araújo).

 

Ali, em volta de Norma, seus familiares, marido e filhos – Vieira, Carol e Rafael – colegas e amigos de diferentes esferas da UnB, seu lar expandido. Tocados por Norma, todos e todas igualmente serenos, apaziguados pela expressão suave e confiante da tranquila despedida.

 

Ainda ali Norma manteve o porte nobre de uma presença central, como nos enriquecemos os reitores e reitora com a sua competência e leal assistência desde o Gabinete do Professor Cristovam (que a requisitou para o Palácio do Buriti em seu Governo e para a  Secretaria Executiva do Conselho Nacional de Educação, em seu exercício ministerial); o professor Roberto Aguiar, que teve em Norma um arrimo forte no interregno pro tempore; eu próprio num continuum, entre o Gabinete Cristovam que chefiei e meu próprio reitorado; e a reitora Márcia Abrahão, presente na despedida, ao lado de sua querida amiga.

 

Em volta a Norma seus colegas e professores, entre eles e elas os do CDS – Centro de Desenvolvimento Sustentável, onde atuou e que ajudou a consolidar, e os colegas acadêmicos da Faculdade de Educação da UnB, onde conquistou o seu mestrado. Também em sua homenagem, os colegas e as colegas da Ouvidoria da UnB, sua última contribuição à Universidade, no melhor sentido da função exercida por esse órgão, a de construir o legado pedagógico da institucionalidade acadêmica praticando o que Boaventura de Sousa Santos chama de escuta profunda, que permite discernir no entremeado burocrático as relações e vivências que assegurem o trabalho decente e o exercício da função pública com compromisso e dignidade.

 

Então, como ela própria antecipou em sua intuição artística, o modo mais sublime de dizer o indizível, ela finalmente alcançou o dom de poder, no dia de hoje dizer: cansei, agora quero ser poeta!

 

Querida amiga, os poetas não morrem se encantam.

 

* De Norma Sueli Araújo, RETALHOS DO DIA

18 de fevereiro de 2011 às 09:30

 Queria poder, no dia de hoje, dizer: cansei, agora quero ser poeta!

______________________

¹José Geraldo de Sousa Junior é ex-Reitor da Universidade de Brasília, professor da Faculdade de Direito da UnB e membro da Comissão de Justiça de Paz de Brasília.

Palavras-chave