OPINIÃO

José Alberto Vivas Veloso é professor aposentado da Universidade de Brasília e criador do Observatório Sismológico (SIS), da mesma universidade. Graduado em Geologia, mestre em Geofísica pela Universidad Nacional Autónoma de México, estudou Sismologia no International Institute of Seismology and Earthquake Engineering, no Japão. Trabalhou na Organização das Nações Unidas, em Viena (Áustria), na montagem de uma rede mundial de detecção de explosões nucleares. É autor do livro O terremoto que mexeu com o Brasil.

Alberto Veloso

 

A cidade de economia pujante também ofertava variados entretenimentos aos moradores, incluindo a chance de admirar o então mais famoso tenor, o napolitano Enrico Caruso protagonizando Dom José, na Ópera Carmen. O teatro lotou, o espetáculo agradou e a noite se foi. O dia seguinte amanheceu como outro qualquer, mas apenas até as 5h12.

 

Testemunhas ouviram fortíssimos ruídos vindos do interior da terra, quando também sentiram suas camas, os quartos e as casas chacoalhando com intensidade crescente e duradoura. O terremoto atingiu São Francisco, Califórnia, em 18 de abril de 1906, ocasionando 498 mortos e 225 mil desabrigados, de uma população de 400 mil. Um incêndio alastrou-se por 3 dias e 3/4 da cidade ficaram arrasados.

 

De acidentes aéreos muito se aprende e os ensinamentos revertem-se para aprimorar a segurança dos voos e da performance das aeronaves. Algo similar se aplica aos sismos catastróficos, como o de São Francisco, mesmo acontecido há mais de um século. Isso foi possível porque a falha que gerou o terremoto modificou a superfície do terreno de forma clara e didática. Quem viu, mediu e interpretou tais mudanças foi o engenheiro-geólogo Henry Fielding Reid, que depois estabeleceu um dos princípios basilares da Sismologia, a teoria do rebote elástico. Simplificadamente, ela diz que o lento acúmulo de tensões no terreno durante longo período, deforma a massa rochosa que acaba quebrando e produzindo um terremoto. Como as tensões voltam a acumular, o processo se repete e se repete. Reid foi reconhecido no meio científico, mas a falha geológica popularizou-se muito mais. Quem não ouviu falar da falha de Santo André? Esta temida feição geológica, com mil e duzentos quilômetros de extensão, divide toda a Califórnia em dois pedaços e constitui importante componente do contato entre as placas Norte Americana e a do Pacífico. Além de mexer, vez ou outra, a falha não cessa de acumular tensões que um dia serão liberadas como perigosas ondas sísmicas.

 

Mas naquela primavera de 1906, ocorreu fato intimidador. De um lado, geólogos e engenheiros investigavam a causa e os efeitos do sismo escrevendo relatórios e publicando artigos científicos. Do outro, políticos e homens de negócios procuravam convencer os cientistas a interromper seus estudos, pois “o terremoto se foi e o melhor é esquecê-lo”. Desejavam eliminar os efeitos do abalo e maximizar a ação do incêndio na destruição da cidade. Afinal, o fogo é mais fácil de controlar e tanto os investidores locais como os forasteiros poderiam continuar seus negócios sem temer os terremotos. Eles queriam o impossível, esconder a atividade sísmica da Califórnia. Os cientistas não calaram e neste embate parte da liderança coube ao professor John Casper Branner, chefe do departamento de geologia e depois reitor da Universidade de Stanford e também cofundador da Sociedade Americana de Sismologia. Curiosamente, foi profundo conhecedor do Brasil e dos brasileiros e ligou o seu nome à geologia e à sismologia de nosso país.

 

A lição que se tira é que, mesmo debaixo de pressões, a verdade científica deve prevalecer sob quaisquer circunstâncias e interesses, sejam eles oriundos de pequenos ou grandes desastres: um terremoto avassalador, a queda de um edifício, o desabamento de um viaduto, ou mesmo o esfacelamento de uma simples marquise. 

 

Quanto a cidade de São Francisco e a falha de Santo André o que se sabe é que outro terremoto forte está a caminho, sem contudo ser possível precisar a data de sua chegada.  A certeza indiscutível é que ele virá e as consequências serão aterradoras. Então, um dia, a história marcará uma nova data equivalente ao trágico 18 de abril de 1906.

 

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