OPINIÃO

Enilde Leite de Jesus Faulstich é professora Doutora Honoris Causa da Universidade de Brasília.

 

Enilde L. de J. Faulstich

 

Um conjunto de conceitos perpassa a compreensão de inovação e conflui para um só: investimento; no centro da questão, Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Estes conceitos de base são cercados por uma nuvem conceitual: inovação, competitividade, crescimento, economia, mercado, recursos, alta tecnologia, pesquisadores, patentes, trabalho, educação. Deste conjunto, a discussão inicial parte da interpretação de o que é inovação. Para atingir um ponto satisfatório de compreensão, faz-se necessário ter controle dos algoritmos capazes de demonstrar como a inovação arregimenta investimento. P&D sustentam, necessariamente, a inovação dos Parques Tecnológicos, que estão diretamente ligados à educação superior e básica.

 

Ainda, no entorno de inovação, há outra nuvem de palavras-conceitos relacionadas: tecnologia, criatividade, economia global, crescimento sustentável, economia nacional, e outras. À luz da filologia clássica, o par inovar-inovação se mantém vivo desde 1873, registrado no Grande Diccionário Portuguez ou Thesouro da Língua Portuguesa pelo Dr. Fr. Domingos Vieira, e, aqui, ‘innovar’ e ‘innovação’, transcritos com a ortografia da época: “innovar (Do latim innovare) é mudar, introduzir novidades. – Reparar, tornar a fazer de novo. – Reformar. – Figuradamente: Renovar. – Concertar – Temendo que se innovasse alguma cousa. – Innovar palavras; introduzil-as na língua”; “Innovação (Do latim innovationem). Acção e efeito de innovar; novidade, mudança.” Deduz-se, por conseguinte, que inovação guarda um significado que perpassa séculos. No atual, ‘inovação’ é um nome processual e vai além do que diz frei Domingos. No entanto, tem sido repetido que o significado é aquele mesmo: ação de inovar; novidade; mudança. Por sua vez, na tentativa de inovar, surge, no uso técnico, a expressão ressignificar, como saída semântica, entendida como ‘atribuir a um significado existente um novo significado’. Do ponto de vista da P&D, não é só isso, é mais. Para ressignificar, é necessário que novos filtros sejam aplicados aos acontecimentos, a fim de alterá-los. Nesse contexto, a língua e os aspectos criativos de linguagens são meios e fins para a compreensão do que seja inovação.

 

Na matéria Opinião, do Correio Braziliense de 3/2/2018, a chamada de atenção para o que se passa no território nacional, segundo os argumentos da “Inovação necessária”, é estimulante, mas exige uma breve demonstração de dados, resultantes das operações, executadas nos setores responsáveis pela pesquisa e inovação da Universidade de Brasília-UnB. Nesses termos, a UnB precisa ser revisitada e ressignificada. No exercício de transformar o ambiente de inovação e de fortalecer o Sistema Nacional de Inovação, a UnB criou o DPI – Decanato de Pesquisa e Inovação, que tem como foco criar um ambiente na universidade que permita disseminar e transferir conhecimentos e tecnologias para o setor produtivo, em ações conjuntas com o governo, e pautado por questões sociais.

 

Alguns dados merecem difusão. Como um dos setores do DPI, o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico–CDT, nos 31 anos de existência, alterou, consistentemente, os serviços que oferece. Com parcerias importantes para o desenvolvimento tecnológico, somente em 2017, foram efetuados 14 licenciamentos de propriedade intelectual, superando os 13 licenciamentos de anos anteriores. As disciplinas de empreendedorismo, que abrangeram 170 alunos em 2016, atenderam, no segundo semestre de 2017, 630 alunos. A meta do CDT é chegar a 1200 alunos por ano. O quadro atual de empresas incubadas é composto por 16 ativas, sendo que três foram graduadas e duas fecharam o ano com faturamento de cerca de 1 milhão de reais; a geração de empregos é meta, especialmente, para universitários. No percurso da inovação e do empreendedorismo, a descentralização é uma realidade. Em 2017, realizaram-se oito eventos de inovação, que capacitaram 2300 estudantes de graduação e de pós-graduação, incluindo alunos do IESB e do UNICEUB. O resultado, até então, é de mudança de posição em empreendedorismo: a UnB saiu da 18a posição para a 8a, em 2017. Empreendedorismo é competitividade, que exige eficiência para processar inovação.   

 

Ainda na UnB, merece destaque o Parque Científico e Tecnológico, agora vinculado à Reitoria, que teve como principal ação um grande seminário com os principais parques do Brasil; a boa expectativa é de que as trocas mútuas avancem e produzam os conhecimentos inovadores desejados. Retomo um excerto de Opinião – Visão do Correio, quando afirma que “O Brasil vem sistematicamente apresentando baixa performance quando o assunto é inovação...”. E aqui cabe a questão: neste enorme país, os algoritmos para a solução de problemas são todos iguais? Que Brasil está sendo avaliado? Se o ponto de partida é investimento federal, estamos todos iguais. A questão é de Estado. Os fortes cortes financeiros atingem todas as áreas. Por sua vez, a Universidade de Brasília se apresenta grande, quando faz o possível na busca de meios que possibilitem à comunidade universitária, formada por todos os segmentos, continuar a administrar, pesquisar, empreender, ensinar e aprender. Crise, do grego krísis, estimula a faculdade de distinguir, de tomada de decisão, é uma força motriz para o ser crítico, para o ser inovador; é um algoritmo de força e de ganho de confiança da sociedade circundante. Compreendido desse modo, o desenvolvimento empreendedor e inovador da UnB evita que o saber-fazer universitário pereça de inanição e inanidade.    

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* A propósito de Inovação necessária

[Texto motivado pela matéria Inovação necessária, Opinião, Visão do Correio, 10-Correio Braziliense-Brasília, sábado, 3 de fevereiro de 2018]

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