OPINIÃO

Aldo Paviani é Professor Emérito da Universidade de Brasília e Pesquisador Associado Departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (NEUR/CEAM/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Livre Docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiênica em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanizacão em Brasilia, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

Aldo Paviani



Há 20 anos tratando da construção injusta do espaço urbano em Brasília, referimos o uso extensivo da terra, que disseminou núcleos urbanos no território do Distrito Federal (DF). Essa espacialização ensejou o polinucleamento, visível no mapa do DF desde 1960. O povoamento privilegiou a doação de lotes, na base de uma casa, uma família, desde a criação de Taguatinga, em 1958. Pode-se perceber as vantagens da cidade estelar, em que, entre núcleos urbanos, havia vegetação, riachos, vertentes, demonstrando que o bioma cerrado proporciona qualidade ambiental, com geografia e paisagens naturais não encontradas em outras metrópoles nacionais.

 

No estudo da evolução de Brasília, avalia-se que, a cada desconstituição de favela, o prêmio para os deslocados era um terreno, visando acomodar os que foram erradicados de invasões. Foi o caso das chamadas Grandes Invasões, com 77.702 habitantes (Codeplan, 1970), sobretudo as que ocupavam superquadras das Asas Norte e Sul do Plano Piloto, bem como das Localidades Provisórias, com 5.913 habitantes (Codeplan, 1970), erguidas nos acampamentos das construtoras, desconstituídas ao longo dos anos. Com a população desses núcleos precários criaram-se as cidades-satélites, guindadas à condição de Regiões Administrativas (RAs).

 

Essa evolução urbana demonstra que, em 1960, Brasília, ao ser inaugurada, possuía quase 130 mil habitantes; 10 anos após, mais de 500 mil; em 1980, passou a casa do 1 milhão de habitantes, chegando, segundo estimativas da Codeplan, aos 2.906.574 habitantes, em 2015 (Pdad, 2015/2016). A capital federal apresentou crescimento populacional vertiginoso, sem precedentes no país. Portanto, ao longo do tempo, o alargamento da ocupação do território do DF resultou em:

 

1 - Redução das vantagens ambientais por mudanças no padrão polinucleado de povoamento;

 

2 - Ocupação da mancha demarcada nos mapas do DF, sem descontinuidades, emendando um núcleo urbano a outro ocasiona a conurbação - denominada de continuum urbano. A mancha formada segue a evolução secular das demais metrópoles brasileiras;

 

3 - O continuum urbano, visível na conurbação pioneira de Taguatinga, Ceilândia, Samambaia e Águas Claras, veio acompanhado da necessidade de verticalizar. As construções em altura (há edifícios com 30 pisos) ocupam quase todo o território de Águas Claras. Essa RA fugiu ao padrão de um primeiro plano para a Área Complementar (AC 1) do Pdot (1977). O plano para a AC 1 do início dos anos 1980 destinava-se à descentralização de atividades o Plano Piloto, que não vingou. Já o plano posterior de Águas Claras, de 1992, exemplifica a maximização da terra urbana, com exacerbada verticalização, se comparada aos demais núcleos do DF. A Codeplan registrou quase 149 mil habitantes na área verticalizada de Águas Claras (Pdad de 2015/2016). Outras RAs apresentam verticalização, embora com menor densidade, em relação a Águas Claras. É o caso de Taguatinga, do Gama, de Samambaia e mesmo de Ceilândia. As duas últimas apresentam edifícios com centenas de apartamentos. Já Vicente Pires demonstra início de verticalização ilícita, com prédios de 4, 7 ou mais pisos, em áreas de residências unifamiliares e térreas ou com 2 pisos.

 

4 - Outra resultante do espraiamento urbano é a conurbação com alguns municípios do colar metropolitano, conhecido na mídia como Entorno. Pode-se afirmar que alguns dos 12 municípios contíguos, a começar por Luziânia, utilizaram antigas fazendas para iniciativas imobiliárias para fins urbanos, como Valparaíso, Cidade Ocidental, Novo Gama, Pedregal e outros. Nessas localidades foram construídas habitações ou se demarcaram lotes para uma demanda reprimida no DF. Por isso, habitantes de Taguatinga, Ceilândia, Samambaia, por exemplo, desejaram morar em casa própria ou terreno e mudaram para fora do DF.

 

Transferiram-se sem perder o vínculo com Brasília, mantiveram o emprego e os estudos em universidades e escolas ou outros aspectos da vida cotidiana. A emigração se processou ao longo de muitos anos, com o que o DF perdeu população para Goiás. Por isso, nos dias atuais cerca de 1,2 milhão de pessoas se fixaram nas bordas externas ao DF. Houve expansão urbana: seis municípios abrigam 100 mil ou mais habitantes cada (Pmad/2013/2014). O processo de metropolização é evidente no ir e vir de milhares de pessoas que mantêm relações funcionais com Brasília, diariamente. Isso é demonstrado por dados estatísticos da Codeplan.

 

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Publicado originalmente no Correio Braziliense em 8/5/2017

 

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