OPINIÃO

Cristovam Ricardo Cavalcanti Buarque é Professor Emérito da Universidade de Brasília e senador do Distrito Federal

Cristovam Buarque

 

Entre os cargos que ocupei, o de reitor da UnB é certamente aquele que me dá mais gratificação biográfica. Mais que livros escritos, programas bem-sucedidos, governador, senador, ministro da Educação foi o cargo de reitor que me trouxe maior satisfação pessoal.


Tenho razões para isso. Fui o primeiro eleito pela comunidade e ao longo dos quatro anos tivemos relação perfeita com todos os segmentos, além de expandir a relação da universidade com a comunidade exterior, acadêmica e não acadêmica. Ao final dos quatro anos aumentamos o número de alunos, professores, servidores, departamentos, institutos; iniciamos uma nova estrutura que chamamos tridimensional, e para isso foram criados Núcleos Temáticos e Culturais, diversos centros como de Desenvolvimento Tecnológico, e programas de Extensão. Mesmo assim, no lugar de apenas um relatório tradicional das realizações passadas ao final do mandato apresentei um relatório sobre “Os Próximos 20 Anos”. A UnB tinha então 27 anos.

 

Agora, aos 55 anos neste 2017, ao passo que lembro a conhecida glória dos nossos primeiros anos, quero falar sobre os próximos 45 e imaginar nossa marcha até o centenário. Mas o mundo não se move mais na velocidade de 1989 e é impossível imaginar com clareza como deve ser a universidade de 2062. Pode-se, entretanto, imaginar qual deve ser sua tendência, ainda mais neste momento de vertigem nas transformações por que passam a humanidade, sua civilização e até o planeta, nesta era Antropocena. Mesmo sem poder prever o que vai acontecer ao longo de décadas, um conceito deve nortear toda instituição universitária: ser vanguarda na geração do conhecimento e na construção de um mundo melhor, mais sustentável, belo e justo.


Esta deve ser a tendência que ofereça continuidade aos mil anos de universidade no mundo, os quase cem de universidade no Brasil e os 55 de nossa UnB, criada não apenas para ser vanguarda do conhecimento na sua época, mas estar à frente também do próprio conceito, estrutura e compromissos de universidade.


Nascemos vanguarda e devemos continuar nesse caminho entendendo o que mudar para estarmos avante, em tempos de transformações vertiginosas.

Não é vanguarda a universidade que não se solidariza e busca solução humanista (no longo prazo) e humanitária (no curto prazo) para a tragédia da migração em massa. Que não percebe o sofrimento de dezenas de milhares de seres humanos barrados no Mar Mediterrâneo, e de bilhões barrados do outro lado dos “mediterrâneos invisíveis” que cercam o mundo moderno, inclusive nas universidades.


Não é vanguarda a universidade não perceber a velocidade do avanço do conhecimento, fazendo com que a imensa maioria dos doutorados cheguem à sua conclusão com informações já superadas, com teses que já estão ultrapassadas no dia da defesa.


Não é vanguarda a universidade imaginar que o saber confirmado por diplomas tem curta duração, tem prazo de validade. A dinâmica atual exige que todo curso seja permanente, ao longo de toda a vida útil profissional do aluno, que nunca será ex-aluno.


Não é vanguarda a universidade não perceber que a educação de base deve ter a máxima qualidade e ser oferecida com total equidade para todos, especialmente as crianças como forma de não desperdiçar um único cérebro que viva no território de nosso país. Para tanto, a universidade deve envolver-se técnica e politicamente, na busca necessária da revolução que só é possível pelo ensino igual para todos, tendo como lema fazer do Brasil um país com educação de máxima qualidade e garantindo que os filhos dos mais pobres estudem na mesma escola dos filhos dos mais ricos.


Não é vanguarda a universidade não entender que os departamentos por categoria de conhecimento não são mais capazes de elevar o saber até o seu limite no entendimento dos problemas do mundo; e daqui para a frente a instituição deverá trabalhar de forma multidisciplinar.


Não é vanguarda a universidade onde o aluno se forma em uma profissão e faz pós-graduação na mesma área do conhecimento, em vez de saltar para outras áreas e temas; nem aquelas em que boa parte de seus professores foram seus alunos.
Não é vanguarda a universidade monoglota que fala apenas a língua nacional, em vez de buscar o desempenho de forma poliglota, usando os idiomas do mundo.


Não é vanguarda a universidade que ainda considera que o ensino se faz apenas presencialmente, de professor para o aluno, no lugar da interação hoje possível por meio dos modernos meios de comunicação, de forma aberta internacionalmente, onde os professores são alunos e os estudantes podem ser os mestres.


Não é vanguarda a universidade que optar pela média e mediocridade no lugar de exigir excelência e mérito.


Não é vanguarda a universidade que se limita a medir o desempenho de seus membros pelas notas nas provas e os artigos publicados, no lugar de também mensurar pela inovação criada e patentes conseguidas.


Não é vanguarda a universidade prisioneira de seu próprio país, que não entende que nesta era Antropocena a pátria é a Terra, o nacionalismo é o humanismo.


Não é vanguarda a universidade que não perceber os limites ao crescimento econômico baseando na utopia do consumo proposta pela civilização industrial, orientada para aumentar o PIB, e não a ampliação da liberdade, o tempo livre, a criação cultural e espiritual.


Não é vanguarda a universidade que não perceber a necessidade de revolucionar-se, ela própria, substituindo dogmas por dúvidas, se reestruturando para ficar em sintonia com a velocidade que o conhecimento avança, rompendo com seus preconceitos teóricos, incentivando seus alunos a desertarem do que aprenderam e formularem seus próprios conceitos.


Não é vanguarda a universidade que não perceber que o capitalismo global dividiu os trabalhadores em dois grupos cujos interesses se chocam, cooptando em altos níveis de renda dos trabalhadores especializados do setor moderno e inserindo na miséria bilhões de pobres preteridos.


 Não é vanguarda a universidade que se dá como desafio mudar o mundo para desfazer os “mediterrâneos invisíveis” que excluem os pobres em seus guetos e aprisionam os ricos em suas casas.


Não é vanguarda a universidade que não for capaz de saltar da direita para a esquerda no quadro abaixo:

 

1. Valorização do Mérito
2. Militância
3. Compromisso
4. Dedicação Exclusiva à Atividade Intelectual
5. Humanismo
6. Futuro
7. Críticas e Contestação
8. Multidisciplinaridade
9. Exogenia
10. Integração
11. Fonte de Inovação
12. Poliglota
13. Eficiência
14. Espírito Nacional
15. Confiança  
16. Patentes
17. Publicização
18. Estabilidade Responsável
19. Subvenção
20. Avaliação Constante
21. Tolerância Intelectual
1. Aceitação da Mediocridade
2. Acomodamento
3. Descomprometimento
4. Dedicação Exclusiva ao Contracheque
5. Desumanização
6. Imediatismo
7. Submissão à Dogma
8. Monodisciplinaridade  
9. Endogenia
10. Isolamento
11. Descuido com Inovação
12. Monoglota
13. Desperdício
14. Interesse Corporativo
15. Burocratismo
16. Artigos
17. Estatização
18. Estabilidade Plena
19. Gratuidade
20. Tolerância com Falhas
21. Intolerância

  

Pronunciamento feito na Sessão Solene do Senado Federal em 27 de abril de 2017, pela celebração dos 55 anos da UnB

 

Palavras-chave