OPINIÃO

Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília, coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro (n.Futuros/CEAM/UnB), presidente do Comitê Editorial da Revista Darcy/UnB e membro tiular de Academia Brasileira de Ciências. Ex-decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, ex-diretor de Avaliação da CAPES, ex-coordenador do Grupo de Trabalho de Educação, da SBPC, ex-sub-secretário de Políticas para Crianças do GDF. Autor, em parceria com Mozart Neves Ramos, do livro A urgência da Educação.

Isaac Roitman


Recentemente, através da medida provisória 746, foi aprovada a Reforma do Ensino Médio. O argumento que esse tipo de reforma não deveria ser encaminhada por medida provisória e que deveria ser mais discutida pela sociedade tem sido usado por pessoas e entidades. Porém, vale a pena recordar que a melhoria da educação brasileira vem sendo discutida desde 1932 e que no Manifesto dos Pioneiros da Educação o diagnóstico foi feito e as soluções foram propostas. De lá para cá, o que observamos é que a nossa educação não melhorou. As escolas produzem um número razoável de analfabetos funcionais, os estudantes estudam para fazer provas e os egressos de nosso ensino básico não estão devidamente qualificados para o mercado de trabalho ou para o ingresso nas universidades e são desprovidos de valores como a ética, a solidariedade, o desapego, entre outros. Em adição, nossos Professores não têm o reconhecimento de seu trabalho social e estão cada vez mais desencantados.


É legítimo afirmar que a reforma do ensino médio promove avanços como o tempo integral, a flexibilização e a introdução de itinerários formativos. É também pertinente indagar as razões do ensino médio ter sido o foco da reforma. Provavelmente pelos altos índices de reprovação e evasão pelos resultados negativos de avaliação no Ideb (Índice de desenvolvimento da educação básica). Uma pergunta então emerge: De que adianta formatarmos um excelente ensino médio para egressos do ensino fundamental totalmente despreparados?


A resposta a essa questão nos leva a conclusão que todo o sistema educacional precisa ser novamente construído, não através de tímidas reformas, mas, sim, através de uma verdadeira revolução. A educação deverá ser um dever do Estado desde a Primeira Infância, em que a brincadeira deve ser o principal instrumento pedagógico. O ensino infantil deve ser emoldurado pela alegria, pelo contato com a natureza, pela socialização em um cenário de atividades artísticas (música, dança, pintura, cinema etc.) e esportivas. No ensino básico e superior devemos ter o protagonismo dos estudantes através do estudo de temas e resolução de problemas do cotidiano em substituição a aula expositiva. As famílias serão parceiros, ou melhor, cúmplices, na construção de uma educação de qualidade.


É chegada a hora de romper com o tradicional iluminismo educacional que insiste na transmissão de conteúdos e na formação social individualista e uma mídia perversa que constrói uma sociedade para servir ao mercado. É pertinente lembrar o pensamento de John Dewey, com quem Anísio Teixeira conviveu: “A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida”. Vamos todos participar dessa revolução.

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