OPINIÃO

Dioclécio Campos Júnior é Professor Emérito da Universidade de Brasília. Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, é mestre e doutor em Pediatria, ambos pela Universite Libre de Bruxelles. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro titular da Academia Brasileira de Pediatria e presidente do Global Pediatric Education Consortium (GPEC). Atua principalmente nos temas: vínculo mãe-filho, aleitamento materno, nutrição infantil, crescimento e desenvolvimento, desnutrição, estreptococcias, parasitologia, saúde pública e comunicação.

 

 

Dioclécio Campos Júnior

 

Família e criança perdem espaço nas novas gerações que se sucedem. Vão ficando desprovidas do valor que possuem como sólidos alicerces para a construção de um modelo de sociedade menos animalesca. Já não são consideradas na essência incomparável que lhes é imanente. Diluem-se no cenário da robotização progressiva que vem se fazendo em detrimento do componente sapiens da espécie. Acima delas, prevalecem os interesses econômicos de sempre, voltados para novas versões do trabalho escravo e concentração da riqueza nas mãos de poucos. Se essa rota não for interrompida, em breve, pai e mãe, filho e filha estarão na categoria de fontes de vida descartáveis. São sintomas evidentes do organismo de uma sociedade em vias de desagregação.

 

O fecundo núcleo familiar, que concebe, fertiliza e acolhe as criaturas nascentes, não é mais o mesmo. Carece de apoio, reconhecimento e sustentação socioeconômica indispensáveis à sua sobrevivência. No entanto, ainda resiste, a duras penas, no cumprimento da sua sagrada missão que se projeta muito além dos limites inconsequentes do mundo material. Mesmo desprezado pelo imediatismo reinante, que toma conta da dinâmica social dos novos tempos, o sagrado berço familiar consegue muitas vezes sobreviver, embora sem expectativas seguras que o protejam contra um provável e completo desaparecimento. Com efeito, está sendo visivelmente desconstruído por ser incompatível com o individualismo que se dissemina mundo afora.

 

Várias são as consequências negativas do grave empobrecimento ético que banaliza a nobre e insubstituível função da maternidade. A mais preocupante para o sistema econômico em vigor é a redução da taxa de fecundidade, que já se propaga pela maioria dos países. É um indicador objetivo que avalia o número médio de filhos por mulher, durante seu período de vida reprodutivo. No Brasil, por exemplo, ao final dos anos 1960, a taxa nacional de fecundidade era de 5,8. Atualmente, é de apenas 1,7. Está bem próxima à dos países da realidade europeia, como Alemanha e Portugal, entre outros, nos quais é de 1,4.

 

As evidências dos estudos demográficos revelam que, quando a taxa de fecundidade da população de um país é inferior a 2,1, a insustentabilidade econômica começa a se configurar para as próximas gerações. Trata-se do desafio atual que os países europeus dificilmente terão como superar. De fato, quando se deram conta do forte impacto negativo causado pela acentuada diminuição desse indicador, os governos tentaram reverter a política de controle da natalidade, implantada havia décadas. Não conseguiram. Ofereceram benefícios à faixa etária com potencial reprodutivo, sem êxito nenhum.

 

A clara e contínua redução populacional é, portanto, um risco planetário que escapa ao controle das políticas públicas. A Organização das Nações Unidas (ONU) tem formulado múltiplas projeções para os tempos vindouros, trabalhando com a hipótese de que tal tendência seja reversível. Contudo, a perspectiva real tem se mostrado diferente em virtude do incessante declínio da taxa de fecundidade, mesmo dos povos mais pobres. Todo esse quadro revela a contundente prova de que o modelo de sociedade que ora culmina a história da raça humana no planeta Terra põe em risco a própria sobrevivência da espécie.

 

Diante de um horizonte assim tão carregado de indefiníveis delineamentos, não resta dúvida de que a prioridade pública deve ser sempre a promoção integral da criança, com pleno suporte à família que lhe dá origem. Os interesses econômicos precisam ser refreados. Boa parte das populações jovens não quer mais ter filhos. Seus objetivos existenciais são outros. Por isso, o conceito de progresso requer profunda revisão crítica que permita o prevalecimento dos princípios éticos, morais e espirituais sobre a ilusão tecnológica e a materialidade sem limites. A evolução técnica só faz sentido se ajustada aos requisitos essenciais da humanização.

 

Ao longo de milênios de vida, nas mais diversas e difíceis circunstâncias, o Homo sapiens povoou o planeta adquirindo virtudes cumulativas que não podem ser abandonadas. A fim de que os ganhos históricos não se convertam em sinônimos de ficção, o modelo de sociedade merece reflexões construtivas que contribuam para pôr fim às desigualdades sociais, medida sem a qual não se pode falar em desenvolvimento humano. Para tanto é inadiável a universalização do conceito de que mãe é a fonte do amor sublime; pai compartilha afeto participativo; e criança é o embrião do futuro cidadão no útero social da humanidade, que é a família.

 

Publicado originalmente no jornal Correio Braziliense em 29/11/2016

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