OPINIÃO

Diretor do Instituto de Relações Internacionais da UnB e pesquisador 1 do CNPq, Ph.D pela Universidade de Birmingham, Inglaterra.

José Flávio Sombra Saraiva


As notas internacionais se confundem com as nacionais. A reunião dos Brics na Índia tratou de temas velhos e de alguma vontade de revitalização dos interesses da coalizão de países baleias. Marcados por grandes territórios e poderes político-econômicos no mundo, a exceção dos países baleias dos Brics é a África do Sul. A menor potência dos Brics, o país ao sul do continente africano, foi incluído para agregar nesse arranjo a dimensão estratégica e geográfica das potências ascendentes em desenvolvimento.

 

Não se questiona o positivo da criação de formas de se agrupar países nos dias contemporâneos. Brasil, Rússia, Índia, China e a África do Sul, desde o primeiro summit, demonstraram mudar parte da paisagem do mundo, a compor outro polo de poder em competição e cooperação com os países desenvolvidos tradicionais. A ideia é influir nas decisões globais e avançar em votos do Sul do planeta e forjar peso novo nas instituições internacionais, além da formulação de agendas no da política internacional favorável aos emergentes.

 

Mas os desalentos trouxeram apreensões à reunião de cúpula na Índia. Os Brics escolheram temas negativos, como o terrorismo, ao mesmo tempo em que a depreciação econômica de alguns membros do clube chegara ao subcontinente como uma tempestade. A Rússia anda cutucando os norte-americanos na guerra da Síria. O presidente Putin, homem da espionagem, quer troca de informações estratégicas entre os países dos Brics. Ora, quem vai entrar nessa.

 

A África do Sul enfrenta problemas de corrupção do governo. A Índia continua com sua miséria e serviços modestos aos mais pobres. Enquanto se esmeram países como a África do Sul e a Índia a incluir novos trabalhadores e empregados, a China faz sua propaganda própria, com sua economia crescente e concorrente da própria economia norte-americana.

 

O Brasil, membro nato dos Brics, caminha no desalento, ao enfrentar a situação crítica política, econômica e social. O declínio do Brasil é visto pela sociedade internacional. As razões são mais internas que externas. Um exemplo. Desde o final de semana vem informando o IBGE a situação dos brasileiros. O país chega a marca desesperadora de 22 milhões e 600 mil pessoas desempregadas, subocupadas ou em potencial para trabalhar, mas que desistiram de procurar vagas para o trabalho. Desse total, há os 11 milhões e 600 mil brasileiros de desempregados. Porém, como informou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), há mais 6 milhões e 200 mil brasileiros em condição de trabalhar, mas que perderam a esperança de encontrar emprego pois não há vagas nas empresas e no governo. Esse é o chamado, pelos economistas, de estado de desalento.

 

O desalento, lá e cá, no mundo e no Brasil, avançam na quadra nacional e internacional. Éramos, há poucos anos, uma esperança de nova potência mundial. Tudo era invenção. E há algo pobre na agenda política global. Vejam as esperanças depositadas na elevação do patamar dos países dos Brics!

 

Publicado originalmente no jornal O Povo - CE em 19/10/2016.

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