Carlos Lopes
No Dia dos Pais, o que reproduzo e publicizo parcialmente neste espaço, com as devidas adaptações e ampliação no conteúdo, é parte do meu memorial acadêmico, apresentado como requisito da promoção funcional docente para a classe de Professor Titular da UnB. No memorial, cito meu pai e as suas influências na minha formação de leitor, que subsidiaram a minha compreensão inicial da leitura política do mundo. No presente texto, resgato algumas das ideias expostas naquela ocasião e as conecto com a minha condição de pai, professor e cidadão. Situações que me colocam como ensinante e aprendente em formação.
Ao tempo em que pensava nos termos da escrita deste texto, não recorri a qualquer inteligência artificial generativa (IAGen) para me sugerir, entre outros aspectos, a estrutura geral do texto, tópicos específicos, estilo, argumentos e o eixo transversal para esta reflexão ou mesmo para realizar a correção da escrita. No Dia dos Pais, fico a imaginar quantos destes e daqueles do círculo da amorosidade dos pais apelarão a uma IAGen para escreverem mensagens de gratidão, de amor. “Destravar” a escrita ou a falta de “inspiração” não podem ser justificativas para deslocar para a IA aquilo que está dentro de nós e de nosso entorno, para a construção do sentido do que representa ser pai para nós, para os outros, para o mundo, nem o que ele – o pai – representa para quem lhe escreve. Destravar a escrita é liberar a própria voz, o estilo próprio, a partir da comunicação que anuncia a relação dialógica entre as pessoas e o mundo, na condição de ensinante e aprendente.
O meu pai foi um exemplo para mim, o influenciador do meu interesse e do meu gosto pela leitura, que se iniciou de maneira mais regular por meio dos jornais. Em minha casa, lia com regularidade os jornais que ele comprava. Lembro-me de que, no fim do Ensino Fundamental, pedi ao meu pai para me auxiliar numa redação escolar cujo tema era livre e elegi assunto relacionado à política nacional. Com muita fluência, ele discorreu sobre o cenário político nacional, e eu escrevi o que ele ditou para mim. Esse fato – o da escrita de redação ditada por ele – foi um momento singular da minha formação como redator; ainda não enquanto autor. Redator como sinônimo de copista; e autor no sentido de algo de construção própria e identidade autoral. Formulação derivada desse registro é que a presença de um sujeito, no âmbito familiar, que demonstra gosto pela leitura e exteriorização de esquemas de pensamento sobre temas variados ou não, pode, por meio de seu exemplo, encontrar nos filhos recepção positiva para inculcar e incorporar, de maneira regular e duradoura, certos gostos e atitudes em relação à leitura e/ou à escrita, desde que os filhos contem com condições e espaços de socialização que influenciem seus valores e práticas.
O ambiente familiar me possibilitou o acesso a certa variedade de gêneros textuais: revistas em quadrinhos, jornais e alguns poucos livros infanto-juvenis. O meu gosto pela leitura se deu sem o incentivo direto e sistemático do núcleo familiar, mas se inspirou na autoridade, no exemplo de um leitor no espaço da família: o do meu pai. Desse modo, são de momentos singulares e plurais que nos constituímos social e politicamente enquanto leitores, escritores, autores e cidadãos em formação. Evidentemente, sem desconsiderar a desigualdade do mundo social em relação ao acesso aos bens culturais, tampouco as formas de enfrentamento das desigualdades.
Em tempos de jornais em meio digital, o jornal impresso circula em minha casa; textos científicos, literários e de tantos outros gêneros ficam disponíveis ao alcance das minhas filhas e de meu filho. Minha filha e meu filho mais velhos foram graduados pela UnB; e a filha caçula está em processo de formação na mesma universidade. As minhas filhas e meu filho estão se constituindo autores e cidadãos em formação. Penso nos inúmeros pais que se alegraram quando seu filho e/ou filha ingressou na UnB, permaneceu e progrediu no curso e, por fim, concluiu a graduação para iniciar um novo ciclo de formação ou atividade profissional. Somos parte do grupo dos privilegiados, e muitos pais – entre os quais eu me incluo – buscam essa expansão dos sonhos possíveis para os filhos e as filhas de outros pais. Assim, penso também no pai que ainda tem a esperança de ver seu filho e/ou filha na UnB ou em qualquer outra instituição pública de educação superior. A família não é, necessariamente, o único espaço de socialização que nos ajuda a reconhecer culturas ditas legítimas por sua posse ou não (acesso e leitura de revistas e livros, idiomas), nem a ter êxito na obtenção de um diploma de graduação.
Enquanto professor da UnB, atuando na Faculdade de Educação, a minha condição de pai e cidadão se encontra no pensamento de Freire (1996), ao tratar da falsa separação entre seriedade docente e afetividade; o que não significa, para o professor, ter de se eximir da sua autoridade docente, explica Freire (1996). Por aproximação tópica entre a condição de pai e a de professor, ainda baseando-me em concepção de Freire (1996), segundo a qual ensinar exige querer bem aos educandos, significa ter a abertura para a alegria de viver, o que evita que o docente se transforme em um ser “adocicado” e muito menos arestoso e amargo. Para arrematar, com base no autor, somos seres programados para aprender. Na formação contínua, enquanto leitores, autores e cidadãos, devemos realizar a leitura do mundo, para compreendê-lo e transformá-lo.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
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