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OPINIÃO

Bruno Lara é jornalista e pesquisador. É doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio Janeiro e tem pós-doutorado na mesma área pela UnB.

Bruno Lara

 

O conceito de trabalho varia conforme a cultura, a História, as ideologias. Há séculos, o trabalho se referia à atividade física para a garantia do próprio sustento. Não era valorizado, o que não significava desimportância. Atribui-se a origem do termo ao latim tripalium, instrumento usado na lavoura. Depois, passou a nomear uma ferramenta de prática da tortura. Tradicionalmente, o trabalho é relacionado à dor, algo exercido por servos e escravos.

 

A depreciação do trabalho também está no cristianismo. Adão e Eva foram punidos com a expulsão do Jardim do Éden e obrigados a trabalhar. Aqui, o trabalho é castigo, não é vida para a Criação.

 

Para Aristóteles, ninguém poderia ser livre e, ao mesmo tempo, ter que trabalhar. Numa passagem filosófica, Sísifo foi condenado pelos deuses a repetir eternamente a tarefa de subir uma montanha carregando uma grande pedra até o topo, de onde ele deveria soltá-la para rolar ladeira abaixo. Numa das descidas para pegar a pedra, Sísifo reflete sobre a sua rotina. No alívio, ele exerceu a imaginação, a criação de sentido do que faz. O ócio como perversão da ordem, o “vagabundo” como desintegrador do sistema. A palavra ócio tem relação com o grego scholé, que dá origem à palavra escola. A oportunidade de desfrutar do ócio permitia a dedicação a atividades nobres, como a filosofia, arte, espiritualidade.

 

Mas, vieram a Renascença, o protestantismo, Iluminismo – fenômenos que impactaram ideias, culturas, o trabalho. Jamais seríamos os mesmos. O trabalho passaria a ser interpretado como oportunidade para aprimorarmos o ofício a que nos propomos. O trabalho é um meio de transformar o ambiente em que vivemos, dizia Georges Friedmann. O protestantismo legitimou o trabalho como exercício divino que permite o enriquecimento pessoal. O trabalho como virtude, não como desprestígio. O trabalho “dignifica o homem”, conforme palavras de Benjamin Franklin (que, aliás, nasceu no mesmo dia e mês em que eu).

 

Então, o conceito de trabalho foi mudando ao longo da História. Alain de Botton diz que há duas filosofias sobre a área. Uma delas é restrita às finanças. O trabalhador exerce a sua função para garantir o sustento, não vive para o trabalho. Trabalha para desfrutar as folgas, celebrar a vitória do Flamengo aos domingos (esse trecho é de minha autoria). Já o outro modelo entende o trabalho como meio de realização pessoal. O trabalho é associado à felicidade.

 

Mas, há uma lógica do produtivismo que prejudica a saúde e as nossas relações. Recentemente popularizado, o termo burnout se refere ao esgotamento da pessoa submetida a condições desgastantes de trabalho. Pesquisa da Royal Philips apontou que mais de 70% dos brasileiros têm dificuldade para dormir. E tome remédios!

 

Um estudante indígena com quem eu conversava há poucos dias comentou que na comunidade dele o trabalho é exercido durante alguns meses para plantar e colher. No resto do ano, eles vivem, desfrutam. Ótimo, mas impensável para os nossos padrões. Perceba o quanto somos frutos da cultura, do território, da História. Para Schopenhauer, “o Homem é livre para fazer o que quer, mas não para querer o que quer”.

 

Talvez, o que esteja por trás dos conceitos atuais de trabalho seja a sede de poder, o status e o medo da exclusão social. A competitividade que opõe seres humanos e afeta a solidariedade. Se você tivesse a garantia de uma renda segura para sempre, manteria a sua rotina e os seus planos? Não se vive só de trabalho ou só de ócio. Excelente que temos trabalhos, mas não dispensemos as pausas regulares, em prol do produtivismo desequilibrado.

 

Bom descanso!

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